Mais um ano. Mais uma lista. Os melhores de 2015 aos nossos olhos.
1. Revenant
O Iñárritu elevou-se nestes 2 anos ao patamar mais alto da elite dos realizadores. 2 filmes geniais que não podiam ser mais diferentes e mostram uma mestria absoluta em vários ambientes e com direção de atores completamente distinta.
Revenant é um filme perfeito. A todos os níveis. Só lhe falta uma leading lady forte. Tecnicamente irrepreensível, com especial destaque para a fotografia, é na mensagem e na representação que se torna uma obra prima. Leonardo di Caprio e o seu antagonista, Tom Hardy encarnam o tema principal do filme magistralmente.
E o tema principal do filme diz-nos respeito agora mais do que nunca. A avassaladora força de mudança, violência e caos que é a natureza. Transmitida, crua e dura como nunca tinha visto em mais nenhum filme. A árvore da vida mostrava mais tendencialmente o caminho da graça. O Revenant pode ser considerado o antagonista do filme de Malick e mostra-nos o caminho da natureza. Como destruímos tudo à nossa volta em nome do progresso e como somos selvagens ao fazê-lo. O reverso da medalha é dado em ambas as facões, do lado dos destruidores (Leonardo di Caprio) e do lado dos massacrados (índio que o ajuda), lembrando o caminho da graça de Malick. O Leonardo di Caprio quebra a 4ª parede e olha para nós, audiência, no final do filme. Como que a lembrar-nos da nossa responsabilidade, como que a lembrar-nos que a equipa do filme teve de ir para as zonas mais inóspitas e longínquas do planeta para encontrar locais naturais, sem presença humana.
Hateful Eight
O western definitivo do maior fã do género. O Tarantino tinha feito o seu pior filme quando pegou no western (Django é um bom filme, mas é o pior da sua filmografia).
Com Hateful eight retira todas as dúvidas e faz um filme ao seu melhor nível.
Desde a metáfora da criação dos usa concentrada em 3 horas e nestes personagens, à banda sonora, à ausência total de centro moral, ao piscar de olho à Agatha Christie, aos twists fabulosos, aos diálogos desconcertantes, à maravilhosa homenagem ao cinema do passado e à formalidade (nos dias de hoje inexistente e esquecida) de se ver este formato de storytelling, Hateful Eight é o segundo melhor filme do ano.
Mad Max: Fury Road
Quem diz que o Mad Max não tem história, não sabe ou não pensou bem na complexidade da arte de criar boas histórias.
E apesar de algumas características não serem propriamente fortes (o arco não é complexo, e não tem grandes twists), as que são fortes, são do mais potente feito este ano. A bíblia da história é magnifica (devem ter ficado 200 páginas fora do guião), a credibilidade (por isso mesmo) é intocável, a exposição para passar essa bíblia infindável de uma carreira é passada com equilíbrio exemplar, com cenas de ação inacreditáveis e uma representação feminina que literalmente rouba o protagonismo. Propositadamente. As mulheres são as estrelas neste filme tão sujo e selvagem. Brains against muscle.
Mad Max renasceu ainda melhor para a nova geração. Uma coisa raramente vista na história do cinema. Um reboot que ultrapassa o seu antepassado.
Inside Out
A história original mais engenhosa e brilhante de todas as histórias originais deste ano. Tem o invulgar mérito de ser um conceito, para além de uma boa história. Um fabuloso conceito que, no limite, dá para criar infinitas histórias a partir dele.
A Pixar, se quiser, pode fazer sequelas infindáveis de bons filmes com este conceitos. Longas, curtas, séries, é o que quiser. O conceito é tão bom que é empolgante só de pensar nas possibilidades de expansão que ele representa. Por isto, já devia estar considerado entre os melhores argumentos do ano. E por ter conseguido a coroa da Pixar, com uma concorrência de peso como a trilogia Toy Story, o Up e o Wall-e, é sem duvida um dos melhores filmes do ano.
Carol
A Rooney Mara é a apaixonada mais bonita, querida e credível da história do cinema. E Carol é uma das melhores histórias de amor.
Curiosamente, raros filmes captaram a paixão tão bem como Carol e Vida de Adele. Ambos intensos mas diferentes na abordagem, muito pela época que retratam. Enquanto que a Vida de Adele é explosivo e selvagem, a Carol é contido e carinhoso. E a face dessa contenção é a Rooney Mara. Perdidamente apaixonada e genuinamente rendida ao seu sentimento.
A Cate Blanchet volta a ter uma interpretação brilhante dando uma credibilidade inquestionável à história em momentos chaves como na reunião sobre a guarda da filha.
Os momentos de tensão entre as duas são o melhor do filme. Seja tensão sexual, seja tensão emocional, estes momentos têm poucas palavras mas passam como raramente um filme passou, um amor tão grande que cresce, e vemos crescer, durante o filme.
O guião aparentemente tem poucas palavras mas muito subtexto, sobre o desenvolvimento do sentimento das duas, a personalidade fascinante das personagens (a amiga da Carol é fabulosa) e a forma como se relacionam.
A Carol decide dar a guarda ao pai. Porquê? A dose de reflexão necessária que a levou a tomar essa decisão, e ela ama profundamente a filha, está nos seus atos, palavras e emoções dessa cena. E pelo subtexto Percebemos que não é um artifício gratuito para ultrapassar o problema e seguir com a história. Percebemos que ela pesou as vantagens e desvantagens de viver infeliz num segredo e o impacto que desvendar esse segredo teria para a filha e para ela própria. Não é preciso explicar, basta ver. E é nisso que o argumento do Carol é muito bom. Não é preciso explicar, basta ver.
Anomalisa
Anomalisa é dos melhores retratos da humanidade nos dias de hoje. As piores características do ser humano estão representadas no personagem principal: Desligado. Desapaixonado. Desatento. Desumano. Cansado. Viciado.
Ele ainda tenta tirar a mascara mas está demasiadamente colada. A esquizofrenia final mostra bem a luta que cada um de nós devia estar a travar no seu interior neste momento em que a sociedade capitalista e individualista está a atingir picos preocupantes e dramáticos.
Filme que dá para inúmeras interpretações e até cabe, e muito bem, a teoria de que tudo foi uma noite de masturbação.
Animação verdadeiramente original é mais um factor para tornar o Anomalisa um filme inesquecível.
Mil e uma noites
O melhor filme português de sempre, tinha de estar bem colocado nesta lista.
Primeiro porque é nosso. E depois porque é dos melhores filmes sobre a crise que afecta todos os países nos dias de hoje.
Com uma dose de humor negro à mistura mas na medida certa. Com uma surrealidade apaixonante e muito única do nosso país, este filme torna-se uma pérola muito original e ao mesmo tempo muito interessante e relevante para outros públicos não portugueses.
Com criticas estrondosas em meios internacionais tenho pena que não tenha tido mais reconhecimento nos festivais de cinema mundiais.
O Sal da Terra
Vivemos tempos preocupantes.
O NY Times publicou um estudo, onde conclui que a humanidade nunca foi tão civilizada como nos dias de hoje. É possível, mas não podemos ter como termo de comparação o passado, principalmente se queremos evoluir. A evolução traz-nos responsabilidade. Para com o nosso planeta. É a nossa casa. De todas as espécies.
E não o estamos a tratar bem. Estamos longe de ser um exemplo de equilíbrio como espécie. Continuamos a reproduzirmo-nos de uma forma insustentável, às custas do extermínio de outras espécies e sem respeito pela existência e crenças dos nossos semelhantes.
Por isso, vivemos tempos preocupantes, independentemente do estudo do NY Times.
O Salt of the earth devia ser ensinado nas escolas. Em todas as escolas do mundo. O que a mulher de sebastião salgado fez, é das melhores cartas de amor ao nosso planeta. É simplesmente overwelming.
O exemplo máximo de altruísmo, o exemplo máximo do que nós, como espécie, deveríamos almejar.
Este exemplo é concretizado com uma ação especifica que no limite pode ser posta em prática por todos.
Para além de ser uma grande história com a protagonista mais inesperada, é pedagógico no sentido em que nos ensina e nós dá um exemplo de como fazer.
Force Majure
Como uma premissa tão simples, pode criar um filme tão poderoso. É realmente maravilhoso como um acto (ou não acto), subtil, mínimo, discreto pode mostrar tanto sobre o carácter de uma pessoa e pode ter tanto impacto sobre os que o rodeiam.
Dotado de um sentido de humor terrivelmente negro, não deixa de ter imensa graça ver como esta pessoa reage à sua gigantesca falta de coragem e egoísmo entretanto desmascarada perante a sua família e amigos.
A ideia genial bastou para fazer o filme, mas não bastou para ser um grande filme. Muitíssimo bem filmado, com uma excelente fotografia e poderosas interpretações fazem deste filme um dos melhores de 2015.
Relatos Selvagens
Como se contam 6 histórias sobre o limite selvagem do ser humano quando sabemos que somos capazes do pior?
Relatos selvagens consegue fazê-lo.
Acabamos de ver estas 6 fantásticas histórias com a certeza absoluta que é impossível captar melhor, a selvajaria do ser humano. Damian Szifron conta estas histórias assustadoras com um sentido de humor muito negro e apurado pelo que é difícil não rir com o nível inacreditável a que estas personagens chegam.
O que nos faz, de certa forma, cúmplices da loucura.
Depois de várias vezes quase lá, o Nolan consegue o lugar cimeiro no pódio. Num ano que demorou a arrancar, o Interstellar foi o melhor.
Qualquer filme que consiga a proeza de me colocar a ler 300 páginas de física quântica e teoria da relatividade tem de ter relevância neste top.
E o poder para o conseguir vem do storytelling. Se este não fosse poderoso, o impacto de tudo o que ele tenta passar seria perdido.
E é mesmo pela ciência que este filme começou. O Kip Thorne, cientista conceituado, co-escritor do argumento e consultor em todas as áreas do filme, foi quem começou a esboçar a história há muitos anos atrás. O projeto passou por várias mãos antes, incluindo o Spielberg, mas foi com o Nolan que finalmente ganhou forma e vida.
Reestruturou tudo o que tinha a ver com ciência, simplificando a inclusão da mesma na história (inicialmente existiam vários Worm holes e Black holes) e introduziu o drama de um pai e de uma filha afastados pelo espaço tempo.
As questões científicas que o filme levanta são todas dentro do conhecimento humano até à data, o que torna tudo o que vemos no filme, possível de acontecer, provado e estudado pela ciência até agora. Algumas questões são especulativas mas não muitas. E mesmo a especulação é sempre com base num conhecimento muito concreto do tema analisado.
As construções visuais do Worm e Black hole são as mais fidedignas mostradas até hoje. E o filme gerou vários papers universitários de novas descobertas resultantes do estudo efectuado.
O filme lembra uma mensagem que se repetiu insistentemente ao longo deste ano em inúmeros filmes e que já tem vindo a ser hábito nos últimos anos, que é o alerta cada vez mais iminente da destruição do nosso planeta, algo que os países mais ricos teimam em ignorar em todos os fóruns mundiais que se vão realizando na vida real, mas que a classe artística lembra com cada vez mais intensidade e força de ano para ano.
E lembra-nos de olhar para estrelas e pensar no nosso lugar no universo. Desafia o nosso espírito de descoberta. Lembra-nos de olhar mais para as estrelas e menos para os nossos smartphones. Faz-nos regressar aqueles tempos de infância onde ficávamos uma noite inteira a olhar para as estrelas e falar do que seria o universo e como este poderia ser infinito.
O livro “A ciência do Interstellar” de Kip Thorne é um complemento essencial a este filme e faz-nos continuar nesta aventura que é conhecer o universo que nos rodeia.
BIRDMAN
Chuck Palahniuk tem um livro que se chama Diário. O Diário conta uma história de uma pintora que tem de sofrer fisicamente para atingir o seu expoente artístico. É o que eu gosto mais em Birdman. Michael Keaton tem de sofrer para se libertar da sua sombra “blockbusterniana” e para atingir o seu expoente verdadeiramente artístico. É a partir do momento que ele começa fisicamente a sofrer que a peça começa a ganhar corpo. É quando ele destrói literalmente a sua cara que se torna definitivamente num artista conceituado. Mudando curiosamente a sua aparência. É um assalto armado à praga blockbuster que vivemos. Blockbuster vs Broadway, arte vs pipoca, mediocridade vs intelectualidade, Michael Keaton vs Edward Norton.
O filme é um retrato da vida artística. As aspirações, as frustrações, as angustias, as superficialidades, o ator falhado, o ator de excelência e excêntrico, o agente frenético, a critica, a idolatração, as drogas, o poder da imagem para enaltecer e destruir, a insanidade, a adrenalina, a fúria e o desespero. Tudo condensado num único filme. Mais do que um retrato da vida artística é um retrato da condição humana.
É filmado num único take. E isso para além de ser mirabolante, vai fazer com que este filme seja estudado nas escolas de cinema. Iñárrito disse numa entrevista que tudo o que aparece no filme foi milimetricamente pensado. Nada foi improvisado.
E também disse que o filme está cheio de segredos. E duvida que alguém os descubra todos. Um exemplo é o ano em que o personagem principal deixou de fazer de Birdman (1992). É o ano em que o Michael Keaton fez na realidade o seu ultimo Batman (Batman Returns do Tim Burton).
Depois há o final, ou o closure como lhe quiserem chamar. Eu chamo-lhe final porque acho que o climax é na ultima cena, mas quem ache que o climax é o tiro no palco então que lhe chame closure.
A cena final é, para mim, onde a genialidade do filme é plena. Onde a virtude da ignorância se revela, onde o realizador goza com a nossa cara. Onde o realizador dá poderes supernaturais à personagem principal. É uma interpretação muito minha, mas se o filme é um assalto armado ao blockbuster, à pipoca, à mediocridade, é também uma ode à inesperada virtude da ignorância, e nesse aspecto, ele ter mesmo poderes é o twist perfeito. É como que se o realizador nos estivesse a dizer: “Pensas que estás a ver um filme intelectual? Então estás no filme errado porque ele tem mesmo poderes! Simplesmente não consegue ser um bom ator, ou melhor conseguiu, sofrendo.”
Uma banda sonora arrojada, arriscada, maravilhosa.
O Iñárrito nunca mais será o mesmo a seguir a Birdman. E o cinema também não.
“Popularity is the slutty little cosin of prestige”
GRAND BUDAPEST HOTEL
Grand budapeste hotel foi o meu filme preferido desde que estreou em Portugal no inicio de 2014 e até aparecer o Interstellar e o Birdman. É o meu 2º filme preferido do Wes Anderson (logo atrás do Fantastic Mr. Fox).
O Wes Anderson tem o mesmo problema do Tim Burton. Visualmente é dos realizadores mais originais e fabulosos do cinema atual, mas os filmes ficam sempre aquém por alguma razão, normalmente pelo guião. Já por uma vez o Wes Anderson tinha conseguido uma obra perfeita. Visualmente e a nível de conteúdo com o Fantastic Mr. Fox.
Para já porque o cast é infindável e ele consegue dar relevância a todas as personagens que aparecem. Sem exceção. São todas interessantes por pouco tempo que apareçam.
Visualmente, é escusado falar de WA. Sempre foi a sua força indiscutível e neste filme está no seu melhor.
O casting dispensa apresentações. Uma grande história. Um grande filme.
WHIPLASH
Uma das teorias mais importantes do storytelling é a criação do universo da história. Isto porque uma das características que mais envolve a audiência é a credibilidade. E uma boa construção de um universo da história dá credibilidade à mesma. Mas é das coisas mais difíceis de conseguir porque implica muitíssima investigação principalmente se quem escreve não for especialista. Implica conhecer tudo ou quase tudo sobre o que se está a contar. Se forem galáxias, planetas e Black Holes, se for uma vila piscatória, se for uma sociedade atacada por um vírus mortal. Quanto melhor o conhecimento do guionista/realizador sobre o tema, melhor e mais credível se torna a história.
Este argumento é dos melhores exemplos. Isso sente-se e vê-se, e só por isso, é já um filme que se destaca.
Depois tem 2 atores com 2 interpretações que provavelmente ficarão como das melhores das suas carreiras.
A banda sonora e a edição genial fazem a história correr de uma forma ainda mais fluente.
O storytelling é construído de uma forma brilhante, aumentando a tensão gradualmente desde o inicio até ao ultimo minuto, sendo que o ultimo minuto estica a corda da tensão ao limite, como se pretende nas grandes histórias.
A mensagem do filme, na minha opinião é dos pontos mais interessantes. Uma mensagem também presente no Birdman. O sofrimento e a obsessão diretamente associadas à evolução para um patamar artístico de excelência.
Quem quer ser muito bom naquilo que faz, não basta gostar e trabalhar. Tem que sofrer. Sem sofrimento, a excelência não se alcança.
IDA
Um dos filmes mais pró católicos dos últimos tempos. Se algum filme defende a espiritualidade como uma forma de vida feliz, completa e plena, o Ida é um deles certamente.
E fá-lo através de uma grande atriz e personagem, com uma empatia poderosa e imediata com a audiência, ficamos automaticamente do lado dela.
Conhecemos a Ida que viveu até à vida adulta num convento, aparentemente saudável nos valores e pessoas que integra. Mas que vai ter de sair contra a sua vontade porque a sua tia a quer conhecer, passados todos estes anos.
A agressividade do seu primeiro contacto com o mundo exterior é veiculado pela própria tia no primeiro dialogo que ambas têm.
É tão agressivo e coloca em causa tudo o que ela é, tudo o que ela acredita com apenas uma frase.
A forma como ela reage a essa agressão é tão generosa, honesta e humilde que reforçamos a empatia com esta personagem para o filme todo. Ganha-nos automaticamente.
Experimenta o nosso mundo, a violência, a angustia, o sofrimento, o desespero, o amor, o desejo, a felicidade. E depois disto tudo decide. Decide com um conjunto muito simples de perguntas. E nós, pelo menos eu, percebo-a.
Um ultimo comentário para a fotografia. É só e apenas a melhor fotografia do ano. Não há um único plano que não seja maravilhoso.
LOCKE
Guia para uma liderança implacável: check / Guia para uma vida baseada na verdade: check / Guia para honestidade e frontalidade: check / Guia para assumir responsabilidades e dar a cara pelos erros: check / Guia para tê-los no sitio: check / guia para o que todos devíamos ser: check.
O filme passa-se todo, integralmente, dentro de um carro com uma única pessoa. Mas os conflitos por minuto são mais que muitos filmes carregados de ação. São daqueles conflitos difíceis, credíveis, como se pede numa boa história e a tensão lá vai crescendo exponencialmente ao longo do filme com os conflitos cada vez mais difíceis.
E nós vamos admirando a personagem exemplar que o Tom Hardy representa. Não há jornada de herói porque a personagem é a mesma no final que era no inicio.
Um ser humano exemplar como todos devíamos ser. E por isso é que gera tantos conflitos.
Mais uma estrela brilhante de 2014 que não brilhou em nenhum festival.
GUARDIANS OF THE GALAXY
Comparar este blockbuster com outros históricos e intemporais como o Star Wars, Indiana Jones e Regresso ao Futuro parece um pouco premeditado. Mas que dá muita vontade, dá. E eu vou mesmo comparar por variadas razões:
. Tem uma história exemplar e um universo muito rico.
. Tem personagens inesquecíveis.
. O personagem principal é um triunfo absoluto da combinação de uma personagem muito bem criada e de um ator perfeito para a representar.
. É invulgarmente divertido.
. As cenas de ação estão muito boas, servem a história e não são cansativas.
. E por ultimo e o mais importante, é um filme verdadeiramente familiar no sentido que consegue chegar a todas as idades, colocando inteligentemente ingredientes que interessam a todos.
É dos melhores e mais inteligentes blockbusters dos últimos anos, o melhor filme da Marvel, e uma viagem muito divertida. Venham as sequelas. Esperamos um “Empire Strikes Back”
Ainda bem que foi um sucesso de bilheteira planetário senão não conseguiam segurar o Chris Pratt para um segundo filme. Os assédios já vão desde o Jurassic Park, Indiana Jones e Han Solo. Nasceu um novo herói.
NIGHTCRAWLER
“E se eu te disser que simplesmente não gosto de pessoas”
O personagem do Jake Gyllenhaal faz lembrar as grandes personagens assombradas da história do cinema como o Taxi Driver, o Nicolas Cage em Bringing out the dead, etc.
O que é mais perturbante nesta personagem é que na realidade não há nada concreto que o assombre ou perturbe. Simplesmente não há ética ou moral. Mas há uma procura quase matemática e calculista de sentido da vida e uma vontade cega de o atingir quando descoberto. Ao contrário do estereótipo de personagens assombradas, solitárias, urbanas, este personagem tem uma enorme capacidade de comunicação, skills sociais avançados, inteligência, organização e foco.
E a solidão, muito presente na sua vida, nunca é motivo de tristeza ou depressão porque ele simplesmente “não gosta de pessoas”
Faz lembrar o Estrangeiro do Camus.
De uma forma subtil e não direta, toca em pontos sensíveis dos media nos dias de hoje. A vontade cega de atingir audiências que permite que surjam personagens destas pode efetivamente tornar-se uma realidade, se não o é já atualmente. A Rene Russo encarna notavelmente esta podridão, ganância e impotência dos media perante uma sede insaciável de audiências.
Com uma interpretação gigante do Jake Gyllenhaal, um excelente script, e uma realização notável, é um dos filmes do ano.
BABADOOK
Como é que a loucura chega à nossa vida? Como é que o mal se instala? Uma pessoa que foi boa pode mudar? E será que os outros conseguem ver este mal? E será que os outros o conseguem curar?
Um dos melhores ensaios sobre a loucura em formato filme de terror desde o Shinning. Com as devidas distâncias e respectivas vénias a essa obra maior do kubrick.
Essie Davis e Noah Wiseman são das melhores representações de 2014. Se o desgosto, a loucura e a maldade têm um rosto, é a deles neste filme.
Os sustos e o “monstro” também são muito bem conseguidos especialmente através do som. A voz do Babadook assusta mais do que todos os filmes de terror de 2014 juntos.
Mas é a interpretação do que é este monstro na nossa vida que torna este filme superior, assim como as fabulosas interpretações dos seus 2 atores principais.
E a questão ficará sempre no ar. Será que podemos guardar e alimentar os nossos desgostos e medos para o resto da vida? E seguir em frente, com eles bem presentes. Será melhor assim do que tentar matá-los?
Babadook é tudo o que se pode pedir de um filme de terror que é ser muito mais do que um filme de terror.
10. MAPS TO THE STARS
Map to the stars é uma hate letter a hollywood. Embora o argumentista (acompanhado pelo Cronnenberg) diga que analisar este script e filme como uma sátira a Hollywood dá-lhe vómitos e mostra uma visão limitada sobre o filme, eu acho que não há como fugir dessa interpretação. E ainda bem.
Como Scott Fitzgerald dizia, as pessoas muito ricas são diferentes. E nós, os que não são muito ricos gostamos de imaginar, gozar, criticar a vida deles. A natureza humana é assim.
Independentemente da curiosidade natural que as vidas diferentes causam, é um grandioso freak show e o melhor e mais “Cronnenbergiano” filme do mestre na ultima década. O que é muito bom.
Para além disso tem um desfile de atores brilhantes no topo da sua forma.
O Leonardo di Caprio, numa entrevista ao Charlie Rose, disse que o filme é uma sátira. Como que se estivéssemos a assistir à queda do império romano. O Scorcese que estava presente nessa entrevista discordou e disse que era simplesmente uma boa história.
O Scorcese deve saber, e sabe de certeza, mais do que eu e o Leonardo di Caprio juntos, mas vou concordar com o Leonardo, não só porque concordo a 100% com o que ele diz, como acho que é exactamente por isso que este é dos melhores filmes do Scorcese e o melhor filme do ano.
É, para mim, sem duvida uma sátira, um retrato de tudo o que o capitalismo tem de mau e a razão pela qual a democracia ainda não é um sistema perfeito. Mostra como ainda somos animais irracionais, ou, ainda pior, somos racionais e escolhemos conscientemente seguir um caminho de natureza irracional, implacável e destrutora de tudo o que nos rodeia
Para além disso estabelece um rotulo para o futuro, ou seja, a partir de agora, podemos nos referir aquele colega ou amigo que só pensa na ambição de subir na vida à custa de tudo e de todos como “lobo”.
É inacreditavelmente cómico (talvez o mais cómico do Scorcese), com cenas verdadeiramente hilariantes.
E o mais genial do filme é que mesmo quem acha horrível não deixa de se identificar e até desejar secretamente algum do estilo e postura do lobo. Está tão bem feito que nos lança estes sentimentos contraditórios constantemente.
Temos um Leonardo di Caprio gigantesco. Torna a personagem irascível, mas ao mesmo tempo altamente atraente para o publico. Dá lições directas de como ser um excelente vendedor e líder e são conselhos que qualquer pessoa pode aprender desde que depois não os use para enganar e destruir a vida de pessoas.
Finalmente existe o Jonah Hill. O homem tem vindo a mostrar que é realmente um excelente actor. Depois do Moneyball volta com esta personagem muito bem representada, nunca exagerada mas completamente alucinada, tresloucada, ainda dentro do armário mas com uma vontade enorme de sair de lá. É uma personagem central do filme e uma mais valia para o mesmo.
A combinação de todos estes factores traz uma característica fundamental quando estou a escolher o melhor filme do ano. Que é a vontade de regressar a ele uma vez mais. O lobo faz-me querer regressar e voltar a ver para me divertir, para mostrar a outras pessoas o que é a queda de uma era, para ver excelentes representações, para ver excelentes diálogos.
Depois do Departed, nunca pensei que o Scorcese voltasse a fazer um filme que estivesse no topo da minha lista. Com 71 anos voltou a fazê-lo. Que monstro da 7ª arte este senhor é. Parabéns Mr. Scorcese. Continua a ser um ícone do cinema depois de tantos anos.
2 – GRAVITY
O Gravity é o segundo melhor filme do ano, se visto em IMAX e 3D. Está é condição essencial para que esteja tão alto neste top, mas como ele foi pensado para ser visto dessa forma, acho que é justo avaliá-lo assim. E analisando o filme dessa perspectiva, só não é o melhor filme do ano, porque pessoalmente gosto muito de diálogos, e o lobo ganhou mais afectos na altura de escolher o número 1.
Se não fosse esse toque de gênio do Scorcese, nesta altura tardia da sua carreira, o Gravity seria sem dúvida o melhor filme do ano. E isto por vários motivos, mas o essencial é que me proporcionou uma experiência totalmente nova e refrescante, contado-me uma história e prendendo a atenção do princípio ao fim. No efeito de novidade e disrrupção, este filme foi tão forte para mim como outros dois “game changers” da história do cinema: Pulp Fiction e Tree of Life.
O primeiro grande impacto é que com o IMAX, o 3D e aqueles efeitos absolutamente estrondosos, a sensação é que estamos literalmente no espaço. Estamos com eles ali, no espaço. Como se tivéssemos comprado aqueles bilhetes de viagem à lua. É verdadeiramente impressionante a dimensão que o filme nos faz mergulhar.
A partir do momento em que o filme consegue fazer isso (e comigo conseguiu na perfeição, de uma forma que nunca tinha sentido com outro filme), tudo o que se passa é vivido intensamente, claustrofobicamente, desesperadamente.
Os momentos de desespero são muitos e a tensão é crescente ao longo do filme. Depois é lindíssimo. É o filme mais bonito do ano, muito bem filmado com imagens e fotografia dignas de uma exposição de arte.
A Sandra Bullock aguenta praticamente o filme todo sozinha em condições extremas.
Quais seriam os teus sentimentos se ficasses à deriva no espaço? Não é à deriva dentro de uma nave. É à deriva só com o teu fato de astronauta, com a gravidade a puxar-te constantemente para o infinito negro do espaço, com detritos de um satélite destruído a fazerem a orbita terrestre e a atingirem-te a velocidades vertiginosas de tempos a tempos? Ver o Gravity em IMAX e 3D é sentir o que é passar por isso. Mais do que um filme, porque o é, com todas as regras de contar uma boa história, é um verdadeiro simulador de emoções.
3 – BLUE JASMINE
O Blue Jasmine vale exclusivamente pela extraordinária Blue Jasmine. Vale portanto única e exclusivamente pela Cate Blanchet. O casting secundário é muito bom desde o Alec Baldwin sempre em grande forma e pelos 2 personagens da irmã de do cunhado desempenhados de uma forma perfeita pela Sally Hawkins e pelo Bobby Cannavale.
Mas a Cate é monstruosa. Encarna na perfeição esta personagem, não faz nem por um segundo over ou under acting. É a perfeição para o que se pretende. E o que se pretende é muito exigente. O Woody Allen escreveu um papel fabuloso e muito difícil de interpretar.
Todos nós já nos cruzámos com aquelas mulheres “loucas” nos parques das cidades e ficamos a pensar como se tornaram assim. O Woody Allen escreveu esse papel e inscreveu-o na história do cinema para sempre. Cada vez que nos voltamos a deparar com essa situação nas nossas vidas vamo-nos lembrar da Blue Jasmine.
Para além disso, o grande Woody voltou aos dramas profundos, voltou aos tempos de Interiors e Hanna e suas irmãs. E que bem que soube esse regresso. É o melhor filme dele desde o Match Point.
Relativamente à fabulosa personagem o que há para dizer? Há para dizer que às vezes (ou sempre) não devemos fechar os olhos ao que se passa ao nosso redor. Às vezes (ou sempre) não devemos ficar dependentes de uma pessoa. Às vezes (ou sempre) não podemos ficar “stuck in a moment that you can’t get out of” temos que encarar a realidade e seguir em frente.
Um grande filme de Woody Allen e uma grande interpretação da Cate que me conquistou logo quando o filme estreou a meio do ano e que desde essa altura defendi que seria dos melhores senão a melhor interpretação do ano.
4 – A GRANDE BELEZA
“As pessoas verdadeiramente ricas são diferentes” disse F. Scott Fitzgerald.
99% das pessoas no mundo não sabem como é ser verdadeiramente rico, porque essa riqueza está concentrada em 1% da população. Já alguns filmes abordaram muito bem esta questão como o La Dolce Vita do Fellini, Eyes Wide Shut do kubrick e o Leopardo do Visconti, e alguns não tão bem, como o Somewhere da Coppola. A Grande Beleza está lá em cima com os melhores.
Este universo, sendo desconhecido, torna-se naturalmente objecto de curiosidade e a Grande Beleza faz um retrato bem credível de como será a vida de quem pode gastar pequenas fortunas todos os dias sem nunca precisar sequer de se preocupar com isso. Não abusa do surreal, mas vai dando pormenores simplesmente impressionantes. O actor principal está fabuloso a encarnar esta personagem central do filme, com tanto dinheiro que nem tem paciência para desenvolver um talento aparentemente nato para escrever, simplesmente porque “gosta de fazer festas todos os dias”.
Por vezes sente-se algum desespero nele, mas não é de todo esse o ponto do filme na minha opinião. Outro grande contexto que é passado é o contraste da velha com a nova Europa, povoada dos novos ricos. Enquanto que no Leopardo, a nova classe emergente / novos ricos eram o povo, aqui os novos ricos da Europa são as etnias dos países emergentes como a China e o Médio Oriente.
E o estilo e a classe do nosso protagonista é contrastante com estes novos ricos e representa tão bem a classe e o estilo que a Europa ainda tem no mundo. Penso que o tema não será propriamente a decadência da nobreza, mas mais a decadência obvia de uma qualquer riqueza que por algum motivo deixa de ser gerida e apenas aproveitada a determinada altura de uma dinastia familiar. Seja como for dá que pensar, nunca sendo obvia qualquer mensagem. Maravilhosamente filmado e com um enorme sentido de humor, é definitivamente o melhor filme europeu do ano.
5 – ONLY GOD FORGIVES
O primeiro grande filme de 2013. Estava difícil, num ano com muitos filmes, mas poucos verdadeiramente bons. Cada vez mais começa a ser tendência concentrar-se tudo o que é bom no final do ano. Há apenas a lufada de ar fresco com Cannes e Berlim no inicio do ano.
Este Only God Forgives é fabuloso. O Nicolas Winding Refn é definitivamente um realizador a ter em atenção e com este OGF reforça a sua posição no mundo do cinema como um realizador único, com uma linguagem própria e como uma forma de contar histórias no mínimo diferente.
A história do filme conta-se em 5 minutos. Agora, como é que se aguenta uma longa metragem?
Primeiro que tudo com uma fotografia espantosa. O filme é uma pérola a nível visual. Praticamente todos os planos dão uma excelente fotografia. Depois com uma grande banda sonora. Enquanto que o Drive tinha uma banda sonora mais abrangente, esta é mais discreta, acompanha eficazmente todas as cenas do filme, poderosa mas mais ao serviço do filme o que funciona talvez melhor que a já clássica OST do Drive.
Com grandiosas personagens. Impressionante a descrição do personagem Billy, irmão do Julian (Ryan Gosling) onde em menos de 10 minutos e sem grandes diálogos ficamos a conhecê-lo perfeitamente. As três personagens mais fortes são o essencial do filme.
O policia tailandês (Vithaya Pansringarm), a mãe (Kristin Scott Thomas), e a cidade de Bangkok. O policia é a alma do filme. Um homem de baixa estatura e até com algumas características físicas cómicas, muito conservador, muito reservado, com hábitos muito repetitivos, muito pouco falador é uma verdadeira máquina assassina. O terror do submundo de Bangkok e que acaba todas as noites, depois de esquartejar uns criminosos, a cantar num karaoke com musicas típicas tailandesas, e com os vários membros da sua patrulha a assistir deliciados. Espectacular.
Este chefe da policia tem poder legal para matar os criminosos (tipo 007 do crime em Bangkok) portanto funciona como um verdadeiro anjo da morte que visita e assusta o crime na cidade. A mãe dos criminosos principais é a cabecilha do gang e é uma pérola. Kirstin Scott Thomas representa uma mulher odiosa e manipuladora que controla tudo e todos e tem um poder especial sobre o Ryan Gosling dando a entender algum passado sexual entre os dois. Os filhos são completamente alucinados assim como a maioria das personagens do filme.
E as cenas das mortes pelo anjo da morte são encenadas e filmadas ao pormenor quase como uma dança. E são muitas e muitíssimo violentas.
Por fim Bangkok é a 3ª personagem do filme. Sempre presente e permitindo imagens, luzes e ambientes únicos.
6 – BLUE IS THE WARMEST COLOR
Muito mais do que um filme sobre homossexualidade é um filme sobre o desgosto de amor. Daqueles que cortam a respiração, que fazem o coração doer.
Quem já teve essa sensação sabe que para passar por isso é preciso que a origem seja muito forte. E quem já passou por isso sabe que qualquer paixão arrebatadora tem obrigatoriamente a ver com sexo. Não apenas sexo, mas o sexo é condição essencial para que essa paixão se verifique e para que o drama da separação seja ainda mais intenso e … Dramático.
O realizador sabe disso e por essa razão, na minha opinião, tornou o sexo um elemento tão forte neste filme. Para passar de uma forma clara os vários estágios de uma paixão forte. Daquelas que quando acabam, só apetece morrer. É sem dúvida um filme sobre a importância do sexo e como este é tão poderoso nas nossas vidas
Depois é um filme sobre dois mundos distintos de um casal. E sobre como não se pensa nisso ao início ou não se liga, e como não se pensa o quão importante isso é para o futuro da relação. 2 mundos muito diferentes ou são perfeitamente assumidos pelos dois desde o início e aceites como uma diferença saudável que ambos podem suportar ou será mais cedo ou mais tarde uma razão para a separação inevitável.
As 2 actrizes principais representam de uma forma brilhante esta paixão avassaladora, assim como a diferença dos dois mundos. Mas fazem-no tão bem e de uma forma tão natural, bonita e sensual que acrescentam sem duvida mais uma vitória na defesa dos direitos homossexuais. Assim como o 12 anos escravo é um filme incontornável na defesa da igualdade de raças, o blue é um filme fundamental para a defesa da homossexualidade como uma coisa natural e bonita idêntica a qualquer relação heterossexual, contando para além disso, uma excelente história de amor e desgosto ao mesmo tempo. E assim torna-se num marco importante do cinema europeu e mundial.
7 – AMERICAN HUSTLE
American Hustle é Christian Bale. Ele sempre foi um dos gigantes, e neste filme está numa das suas melhores formas.
A personagem dele é fantástica e muito bem escrita (primeiro mérito para o David o’ Russel) mas o homem encarna-a e exponencia-a de uma forma…
A minha admiração por esta representação tem a ver com aquele stress. Aquela tensão. Aquela preocupação contida durante todo o filme prestes a explodir a qualquer momento.
Aquela sensação de ser a única pessoa preocupada e com senso comum no meio de um autentico manicómio. Ele interioriza toda essa pressão e passa-a cristalina para a audiência.
Todos os actores estão excelentes na sua própria loucura, mas dou especial destaque para o Bradley Cooper. Todos nós temos este personagem na nossa vida. Aquela pessoa super irritante que tudo o que tem na vida é o trabalho. Que é estúpido, frustado, mas consegue ter poder, ser promovido e tomar decisões importantes. O bradley cooper representa a personagem mais irritante do ano no cinema. E fá-lo de uma forma brilhante.
O trabalho de actores é brilhante. O David o’ Russel deve ser, a par do Tarantino, dos melhores hoje em dia a dirigir actores. Consegue espremer performances brutais de todo o casting. O senador está fabuloso e a sua mulher também. Esta é uma das forças do filme. Todas as personagens incluindo as secundárias, estão escritas, trabalhadas e principalmente dirigidas ao mais infimo pormenor. E essa é também uma das regras de ouro de um storytelling de excelência. David o’ Russel está a tornar-se numa referência absoluta do cinema anglo saxónico.
8 – PRISIONERS
Já é hábito falar-se apenas dos filmes que estão a concurso para os prémios do final do ano e que naturalmente são lançados também nessa altura. Também já é hábito não se falar nos bons filmes que vão estreando durante o ano, com algumas excepções como foi o caso do Gravity e Blue Jasmine, e como foi o caso do Silêncio dos Inocentes que estreou no inicio do ano e ganhou os 5 oscares principais.
O caso de Prisioners faz-me lembrar um pouco o Conjuring (critica mais à frente). Não obviamente pelo género, mas pelas características do filme. Já existem milhares de filmes policiais, de serial killers, de crianças raptadas. Mas este pega em todos esses géneros e faz tudo bem. Assim como o True Detective o fez em formato série, o Prisioners fá-lo para o formato longa metragem. Aposta em grandes personagens, tem excelentes representações (Hugh Jackman e Jake Gillhenhaal estão fabulosos) e consegue aplicar magistralmente uma das regras de ouro do storytelling: O crescimento da tensão é feito ao longo do filme de uma forma sustentada e equilibrada, sendo que literalmente cada cena que se segue tem sempre mais tensão que a anterior, criando um climax brilhante para o final do filme.
Mistura muitos elementos e bebe muita influencia ao rei dos filmes policiais negros. O Zodíaco, Seven, Girl With a Dragon Tattoo do mestre Fincher são referências em vários níveis, desde a estrutura da historia, às personagens e à própria fotografia. Não se tratando de plágio, não vejo qualquer problema que assim seja, porque tudo é bem feito e tudo funciona. Um excelente filme que simplesmente conta uma boa história com excelentes personagens. E não essa uma das razões pelas quais amamos cinema?
9 – FRANCES HA
Este ano há 2 grandes filmes sobre artistas que quase conseguiram atingir o sucesso. É um tema muito importante, porque a maioria dos artistas deve ter esta sensação. Que talento está lá, que são excepcionais em algumas das suas obras, mas que não tem aquele toque que lhes permitiu salientar, diferenciar, e descolar do mediano e atingir o reconhecimento geral ou pelo menos o reconhecimento generalizado da área para a qual se especializaram.
Os dois filmes são excepcionais e passam esta mensagem de uma forma sublime. Inside llewyn Davis e Frances Ha tratam este tema e são ambos brilhantes a fazê-lo. A grande diferença, na minha opinião, está nos personagens principais. A Frances é uma personagem mais particular, mas carismática, mais simpática, mais louca e mais interessante para o espectador se identificar.
Outro ponto que acho fabuloso neste filme, é o da inadequação ao mundo adulto. As regras sociais de uma pessoa adulta. As condutas estabelecidas que os adultos tem de seguir para se sentirem integrados. E o que acontece quando quebras essas regras. O que acontece quando essa inconveniência é 100% natural? Quando a inconveniência é natural, surge não para destruir mas porque é assim mesmo.
Lembra uma criança no seu estado puro e não alguém que maquiavelicamente tenta ofender alguém. Assim sendo, apaixonamos-nos verdadeiramente por esta personagem inesquecível porque a Greta Gerwig interpreta-a de uma forma fabulosa. E isso faz com este seja melhor filme. A solução do preto e branco funciona na perfeição, e a fotografia e realização são exemplares. Uma grande banda sonora e temos um dos melhores 10 filmes do ano
10 – CONJURING
Quando estreia um dos melhores filmes de terror dos últimos 2 anos, eu, como fã incondicional do género, tenho de lhe dar uma digna posição no top do ano. O James Wan já tem mostrado ao mundo que é dos novos valores mais seguros no género de terror. Tem marca de autor, filmes bem feitos, abordagens novas e filmes verdadeiramente assustadores (mostrando sempre pouco, mas assustando sempre muito).
Depois de filmes como Saw e Insidious, James Wan lança este seu Conjuring. E a abordagem surpreendentemente não tem nada de novo ou original. O setting é igual a milhares histórias de terror que temos visto ao longo do tempo. A diferença é que James Wan pega nas melhores técnicas e truques deste género e junta-as todas no mesmo filme. É uma colectânea de boas praticas, todas juntas num único filme. Para além disto, faz o que todos os bons filmes devem fazer.
Cria personagens poderosas para que soframos com elas. Neste capitulo, o filme consegue capitalizar um lote muito grande de personagens fortes. Todas as personagens que entram no filme estão bem escritas e estruturadas, até as secundarias, uma regra de ouro do storytelling. No meio do medo, há espaço para humor, muitissimo bem encaixado no contexto, funciona como um escape interessante.
Tudo isto, apesar de soar a deja vu, está tão bem feito e reúne tantas coisas boas, que o tornam um clássico instantâneo. É aquele filme que vai durar no tempo e que as pessoas se vão lembrar de mostrar aos amigos e filhos quando quiserem dar um exemplo de um bom filme de terror, porque simplesmente está tudo lá. Os ingredientes todos, os condimentos certos e as quantidades correctas fazem da receita Conjuring um prato delicioso.
Depois de muito tempo de espera, o amor chegou a Portugal. Um manual para quem quer perceber alguma coisa do assunto e pela mão de quem nos trouxe alguns dos mais violentos filmes dos últimos anos. Sendo um filme do Haneke é preciso ter estômago para o ver.
Mas alguém achava que o amor era fácil?
Ficará para sempre como o filme que verdadeiramente utilizou o conceito “viveram felizes para sempre”. Amor é isto e mais nada. Tudo o que é preciso saber sobre o amor está neste filme. É horrível e lindo exatamente na mesma medida. Um exemplo de como deveria ser a nossa espécie. Faz apostas arriscadas e escolhe dois “velhos” e centra todo o filme em redor deles, numa altura em que só se contratam caras bonitas e jovens para tudo o que é entretenimento.
É o comportamento das personagens que faz verdadeiramente a diferença. É o comportamento das personagens que nos ensina o que é o verdadeiro amor. É só ver como eles se comportam, como eles sofrem um pelo outro, como eles se amam, e aprender. Está tudo lá. São os comportamentos que fazem a diferença neste grande filme. Duas interpretações gigantes (as melhores deste ano) e um final delicioso. É também um filme sobre a morte, sobre a morte dramática e sofrida, e quem passou por um drama familiar próximo semelhante irá sentir ainda mais este filme, pois também é um filme para essas pessoas. Amor e sofrimento (não andam sempre de mãos dadas?) no melhor filme do ano. E Haneke a mostrar que o talento não esta só na juventude e não se esgota nos primeiros filmes. Um grande senhor do cinema europeu. Do nosso cinema!
2 – The Master
PTA has done it again. Enquanto que alguns realizadores vão tendo os seus altos e baixos, o PTA vai-se mantendo tranquilo lá em cima, no topo desta geração de realizadores. Tem um caminho muito único, muito peculiar, muito ligado pormenor, e isso é semelhante ao grande mestre Kubrick, mas por outro lado, completamente diferente no conteúdo. É praticamente impossível definir os filmes deste senhor, apenas que são brilhantes.
Ao ver o the Master, lembrei-me automaticamente do slogan da genial campanha da Apple:
“Here’s to the crazy ones. The misfits. The rebels. The troublemakers. The round pegs in the square holes. The ones who see things differently. They’re not fond of rules. And they have no respect for the status quo. You can quote them, disagree with them, glorify or vilify them. About the only thing you can’t do is ignore them. Because they change things”. Este é definitivamente um filme sobre “round pegs”.
Para o bem e para o mal. Quem é diferente, realmente diferente, faz-nos sentir desconfortáveis. E o PTA filma magistralmente esta diferença, pois entra-nos na pele e faz-nos sentir esse desconforto como se estivéssemos ali, a viver aquela história. O cenário podia eventualmente ser outro que não a cientologia, pois parece-me que o mais importante é sentirmos o que é ser realmente diferente, um autentico game changer.
Mas é importante ser a cientologia por causa do fabuloso personagem de Joaquin Phoenix. O mestre que ao inicio o trata como um animal, no final já duvida se ele não é um true thetan. Se o objectivo da cientologia é apagar os traumas dos vários recipientes para que o thetan (o espírito puro e perfeito) se lembre da sua verdadeira essência, será que o personagem do Joaquin já não está numa fase muito avançada deste processo?
Ou será que é “simplesmente” louco? Se o PTA desse respostas óbvias não seria um dos melhores realizadores da atualidade. Magistralmente filmado, uma fotografia e banda sonora fabulosas, the Master está ao melhor nível do realizador (e o melhor nível são filmes como Magnolia, There will be vlood e Boggie nights…)
A alquimia do Joaquin relativamente às bebidas faz lembrar o famoso romance “Perfume”. A amizade e intimidade entre os dois é também um dos aspectos mais fortes do filme e a dupla de atores rebenta a escala com 2 das melhores interpretações do ano. Obriga naturalmente a pensar sobre religião e sobre como esta é criada e difundida.
Será que daqui a 200 anos, esta não será uma religião reconhecida mundialmente. Se a questão é acreditar, porque não? Será que muitas das outras religiões não apareceram da mesma forma, através de um “louco” que só muito poucos acreditavam? Mais um grande filme para o PTA e um grandioso personagem para a história do cinema.
3 – Silver linning playbook
Porquê é que este filme está nesta posição no meu top 2012?
Está… porque sim. Porque é o meu grande guilty pleasure de 2012. Porque amei as personagens do filme, apetece-me voltar a estar com elas, com todas elas. Porque o casal principal é maravilhoso, grandes interpretações dos dois. Porque o Robert de Niro está em grande, grande forma, como já não via há muito tempo e foi tão bom voltar a vê-lo assim,
Porque o David o. Russel, escreveu um excelente argumento com excelentes diálogos. Porque é um filme que denuncia subtilmente os podres da nossa atual sociedade, vivemos em função do trabalho para termos coisa que não precisamos. Já ouvimos isto há muito tempo. Já desde o Fight Club que vários filmes atacam o capitalismo, mas este filme dá-nos uma visão muito pratica dessa prisão que vivemos atualmente e parece que nos diz: TEMOS QUE SER MENOS NORMAIS!!!
Temos que nos preocupar menos com as convenções sociais e viver a nossa vida sem pensar no que os outros pensam dela. Se isso é ser louco, então está na altura de enlouquecermos todos e ter um silver linning ending.
4 – Holy motors
Adoro filmes estranhos. O único problema é que quanto mais estranhos, mais difícil é serem bons. O contexto de Holy Motors pode não ser inovador (Matrix, Inception, Truman Show, Existenz, Surrogates, etc), mas tudo o resto é. A forma como o filme nos deixa curiosos, história após história, se estamos finalmente perante a vida real do personagem ou se é apenas uma representação.
É assim até ao fim e quando chegamos à ultima história, naquele ultimo bairro, onde pensamos que finalmente estamos a ver a vida real do personagem, testemunhamos a história mais irreal de todas.
Anda a trocar-nos as voltas o filme todo. Mas mesmo com essa ultima história, compreende-se o contexto, vê-se um fio condutor, aprecia-se as pontas em aberto que dão que pensar, e começa-se a ter alguma sensação de controlo sobre o que se passou ali durante aquelas 2 horas. E quando se está com essa sensação, aparece a ultima cena que desconstrói tudo o que se tentou construir até ali.
Cheia de humor, a cena de fecho do filme é genial. Parece que diz: “Não leves este filme, nem a vida muito a sério, porque no fundo no fundo está tudo louco e as limusines podem mesmo falar”.
Tem o intervalo mais espetacular de sempre, com os atores literalmente a darem-nos música. Um momento musical ao nível dos melhores. E seja qual for a mensagem que o filme nos quer passar: a decadência da espécie humana que já não vive, e tem outros a viver por eles. A desigualdade extrema da sociedade onde as vidas vividas fisicamente são apenas para dar virtualmente vida a outras que já não vivem num mundo físico. Uma era onde todas as pessoas a viverem no mundo físico são atores a representar para quem paga a vida virtual. Um mundo de atores.
Seja qual for a mensagem, uma coisa é certa. O ser humano vai sempre gostar de histórias. E depois desta grande loucura da sétima arte, é numa boa nota que acaba. As histórias vão ser sempre imortais e o ser humano nunca vai viver sem elas. As histórias são a única coisa constante ao longo da humanidade. Denis Lavant (actor principal) deveria estar nomeado para todos os prémios deste ano se o filme não fosse o género de dar urticária aos júris dos festivais de cinema. É sem duvida alguma, uma das 5 melhores interpretações do ano.
5 – Os Miseráveis
Todas as histórias que dizem que o amor pode salvar o mundo têm imediatamente a minha atenção. Nos miseráveis é por amor que se salva uma vida. É por amor que se resgata outra. É por amor que se encontra a alma gémea mesmo que seja às portas da morte. É por amor que se começa uma revolução. É por amor que podemos ter alguma hipótese de sobrevivência.
O que não quer dizer que se possa morrer pelo caminho. Mas se for por amor e justiça, que melhor causa para morrer pode haver? Por mais que me custe admitir (por causa do meu ódio de estimação pelo discurso do rei), o Tom Hooper fez tudo bem. Fez um grande filme, sacou grandiosas interpretações, com edição e filmagem inovadora e principalmente e provavelmente o mais difícil, transpôs para o cinema o espírito do musical mas sem perder a identidade de um filme de cinema (parece que estamos na Broadway mas ao mesmo tempo é sem duvida uma longa metragem). Por tudo, e por mais que me surpreenda, vai ser um filme que vou rever inúmeras vezes. Apetece-me ouvir as músicas, apetece-me voltar a estar com os personagens. Na segunda vez que fui ver ao cinema, bateram-se palmas no final, a uma terça feira, num cinema nos arredores de Lisboa. Uma salva de palmas para Les Mis.
6 – Dark knight rises
O filme que fecha uma das 2 melhores trilogias do cinema, esteve à altura das expectativas do provavelmente melhor vilão de sempre e de um filme (Dark Knight) que por razões externas atingiu níveis de notoriedade estratosféricas. Só um realizador com muita coragem avança para mais um filme depois de Dark Knight. Juntamente com Toy Story é uma das melhores trilogias de sempre.
O Nolan está como peixe na água neste universo que criou. A história está bem pensada e consegue unir a trilogia de uma forma perfeita.
Temos 2 novas personagens que não têm uma única cena que não apeteça ver mais do que uma vez. Pelos diálogos e pelas fabulosas interpretações a Celina Kyle / Anne Hathaway e o Bane / Tom Hardy são duas personagens que em todas as cenas que aparecem (todas sem exceção) são uma delicia de ver. O Bane especialmente. Muito ajudado por diálogos brilhantes e por uma caracterização e voz ao melhor nível, cria uma personagem complexa com uma presença imponente que tornam as suas cenas únicas e que o elevam às expectativas deixadas por Heath Ledger.
As criticas do filme são óbvias e vão diretamente para o sistema democrático capitalista atual que claramente já atingiu o seu limite e precisa evoluir. Se não conseguirmos evoluir, o filme lembra que existe sempre um Bane à espera para se revoltar e destruir o mundo que consideramos seguro e justo.
O Nolan tem a inteligência Kubrikiana de passar estes assuntos polémicos pela “censura” norte americana e tornar o filme acessível às massas.
“You think all this can last? There’s a storm coming, Mr. Wayne. You and your friends better batten down the hatches, cause when it hits you’re all gonna wonder how you ever thought you could live so large and leave so little for the rest of us.” Selina Kyle
7 – Prometheus
O Prometheus é o melhor do Ridley Scott desde o Gladiador e é o terceiro melhor do universo Alien. Mas há qualquer coisa mais neste filme. Fui vê-lo pensando que era impossível não ficar desiludido, pelas tão altas expectativas que foram geradas ao longo dos últimos meses do seu lançamento. A Empire, uma das minhas revistas de cinema preferidas deu-lhe 3 estrelas dizendo que o argumento era fraco. Não podia estar mais em desacordo.
O que adoro no Prometheus é a fabulosa nova história que ele explora. Sempre vimos o Alien como um ser completamente alienígena e independente da nossa espécie. Mas porque o Ridley decidiu contar a história daquele ser intrigante que estava sentado na nave do primeiro filme, passamos a descobrir (ou a deduzir – outro dos aspectos mais interessantes do filme) que os Aliens têm tudo a ver connosco e possivelmente só existem por causa da espécie humana.
A nova história mostra que os Space Jockeys são criadores de mundos. Tecnicamente e não transcendentemente criam mundos e tentam criar vida à sua semelhança. Mas como a tecnologia aplicada é muito complexa nem sempre corre bem e nem sempre a vida que criam se desenvolve à sua semelhança. E quando isso acontece, deduzimos que eles regressam para eliminá-la. O que é interessante é que esta tecnologia é altamente sensível e implacável a absorver o ecossistema onde se desenvolve. Se esse ecossistema é agressivo a vida criada assume essas características, se o ecossistema é equilibrado, a vida criada assume esse equilíbrio.
E aí deduzimos que num ambiente agressivo a tecnologia desenvolve vida que no seu expoente máximo de evolução assume a forma morfológica dos famosos Aliens. E num ambiente equilibrado, assume a forma dos Space Jockeys (eventualmente o objectivo máximo destes ao criarem vida pelo universo). Entre estes dois extremos, temos infinitas formas.
É um filme sobre vida. Sobre a natureza e como ela se desenvolve. É um filme que deixa muitas pontas soltas que dão que pensar. Tem o melhor android de todos os filmes. O Fassbender domina o filme e ainda bem pois prova cada vez mais ser o melhor ator da atualidade.
Gostei muito da forma como o Ridley expandiu este universo. As perguntas que ficam por responder dão outro filme (o que muito provavelmente vai acontecer), mas não precisa necessariamente de acontecer.
A ciência e a religião são temas fortes colocados discretamente. “Big things have small beginings”. And this … is only the begining. O universo ficou ainda mais rico e recuperou a força dos 2 primeiros filmes.
Existe uma nova forma de contar histórias no entretenimento norte americano que começou com JJ Abrams no Lost e tem se alastrado, chegando agora ao cinema.
Lindelof escreve argumentos com muitas pontas soltas propositadamente para as pessoas discutirem entre si, para existirem varias interpretações, para que o universo se expanda num formato transmedia. Existem muitos detratores desta forma de contar histórias. Eu sou um adepto renhido e acho que vai revolucionar o futuro. Não só no cinema, como nos jogos, nas marcas e em qualquer forma de entretenimento. Prometheus e o Ridley Scott tiveram a coragem de apanhar o comboio. Vemo-nos no destino dessa viagem e comprovaremos quem fez as apostas certeiras.
8 – Django Unchained
É oficial. O Tarantino é o defensor dos injustiçados da História. Só lhe falta os índios. Pela primeira vez na sua carreira, e na minha opinião, o Tarantino não resolveu bem o final do seu filme. Será pela morte da sua genial e essencial editora? (que segundo palavras dele deveria ter créditos nos seus anteriores argumentos pois “editava tão bem que reescrevia a própria história ao fazê-lo”).
Ou porque o seu amigo de sempre não produziu o filme?
A primeira parte é absolutamente perfeita. A parte final não está bem resolvida. É um excelente filme sem dúvida, mas não ao nível dos melhores do mestre. Se a segunda parte mantivesse a qualidade da primeira, estaria nos lugares cimeiros deste top 2012. Assim, fica com um honroso 8º Lugar. Todos os bons ingredientes de um filme Tarantino estão lá, sendo que o humor consegue por vezes ultrapassar os filmes anteriores de uma forma genial. As grandes personagens habitam novamente este filme com especial destaque para o Christoph Waltz que realmente é grande. Não tão grande como nos Sacanas, mas a melhor presença deste filme. Tudo funciona bem excepto o final.
9 – The Raid
É um filme para “gajos”. Para “gajos” que adoravam o Bruce Lee e não perdiam um episódio dos heróis de shaolin. The raid é o melhor filme de ação do ano. Não morro de amores por filmes de ação “non stop” mas gostava muito dos filmes do Bruce Lee. E este é o melhor que já vi desde que o mestre morreu.
Como é um filme “low” budget, indonésio, obrigou que toda a ação seja real, sem efeitos especiais e com as coreografias de combate a acontecerem mesmo ali em tempo real. Isso dá um efeito ultra realista e torna-o muito credível na sua premissa. E a premissa do filme é simples. O que acontece quando uma força de elite tenta capturar um barão do crime quando este se encontra no ultimo andar de um prédio repleto de tropas da sua organização criminosa?
Com efeitos especiais e truques de edição a lá Hollywood esta tarefa seria repleta de explosões e ação e ficaríamos com a sensação de estar a ver uma banda desenhada. No the Raid, o realizador mostra-nos mesmo o que seria realizar esta tarefa praticamente impossível. Atacar uma fortaleza blindada com uma força de elite de pouco mais de 20 policias. O que faz a diferença é o realismo com que o filme encara esta tarefa impossível e as fabulosas coreografias de combate. Verdadeiramente infernais. Os atores são surpreendentemente bons e competentes e com estes ingredientes se faz um grande filme de ação diretamente do local mais inesperado do planeta.
10 – Cloud Atlas (exequo com Beasts)
“Our lifes are not our own” é uma afirmação poderosa. A nossa vida não nos pertence. Pertence a tudo o que nos rodeia e pertence principalmente aos outros. Os irmãos Watchovsky tentaram explicar este conceito com várias histórias, passadas em varias épocas. E através de vários raciocínios filosóficos e ligações improváveis, conseguiram-no.
Já estou a ver os críticos. “É muita informação num filme só; Devia ter sido feito em série para explorar todas as histórias; É um concentrado de filosofia barata; No final não faz qualquer sentido”. Cloud Atlas, tem muita informação para um filme só, se fosse feito em série tinha muito para explorar e seria interessantíssimo, tem alguma filosofia barata, e há muitas coisas que ficam em aberto. Sim, tudo isso é verdade, e tudo isso pode ser dito. O que não pode ser dito, é que não nos apaixonamos por todas as personagens, que não ficamos desejosos de saber mais de cada uma delas, que não nos faz pensar na nossa existência e na nossa religião, que não é o segundo filme do ano a piscar o olho à cientologia, que não tem um dos castings mais fortes do ano com representações inesquecíveis, que não tem uma banda sonora poderosíssima.
A ideia de ligar as varias personagens por um único ator/atriz foi uma decisão acertada, tornando o desafio transcendental para os atores e dando um gozo especial ao espectador que vê estas diferentes e fabulosas interpretações.
Os temas abordados no filme são cada vez mais importantes nos tempos que correm. O Medo de morrer, ou melhor a ausência do medo de morrer como a única forma de conseguir fazer a diferença. Agir mesmo que não faca sentido. Agir segundo a intuição. Fazer o que está certo mesmo quando essas decisões são aparentemente impossíveis. São temas centrais que nos dão pistas de como sermos melhores pessoas e fazermos a diferença neste mundo… Mesmo que ninguém esteja a ver ou avaliar as tuas ações.
10 – Beasts of the Southern Wild (exequo com Cloud)
A questão fabulosa que este filme levanta é: qual será a existência mais legitima e intimamente ligada a nossa natureza?
A nossa existência cheia de ipods, iphones, facebooks, stress, objectivos, crescimento infinito? (questiono-me todos os dias sobre esta obsessão absolutamente anti-natura dos governos e das empresas em crescer sempre sem parar, sabemos que é por causa da empregabilidade e trabalho, mas organizemo-nos antes para ter menos filhos e começar a explorar bem as riquezas de cada país, e provavelmente podemos deixar de nos preocupar com a merda do crescimento e atingir algum equilíbrio para todos)
Ou a existência destas fabulosas personagens quase primitiva mas com laços grandes de comunidade, ligação a natureza, celebrações de festa e alegria e com a morte (beasts) sempre a espreita?
Uma coisa é certa, eles sabem o que querem e não querem ser resgatados e viver com a sociedade “desenvolvida”. O filme não explica nada, não diz que é por serem primitivos ou por serem mais espertos e genuínos que “nós”, mas deixa-nos a pensar incansavelmente sobre o assunto. Será? Será que estamos errados? Será que o caminho não é o do crescimento desenfreado. Um verdadeiro wake up call. A miúda é uma revelação única. Já o vi há algum tempo e continua a aparecer diariamente para me relembrar dos pequenos pormenores. Welcome to the bathtub!
Devido ao meu amor pela filosofia e pelo pensamento livre torna-se automaticamente parcial a minha posição sobre este filme. A árvore da vida não só é o melhor filme de 2011 como é dos mais importantes filmes dos últimos dez anos.
Por 2 razões. Porque transforma o cinema como o conhecemos noutra coisa completamente diferente. Numa experiência, numa visita, numa exposição de arte e música, numa introspeção. E porque é um documento, um registo, uma “carta” da existência da vida no planeta terra. Dá um foco especial à espécie humana, mas coloca-a no seu lugar e mostra-lhe que não é ao seu redor que tudo gira. Dá uma dimensão espiritual e dá dicas para a nossa evolução. Se somos a espécie mais evoluída, então temos o dever de equilibrar a vida neste planeta.
A frase que abre o filme explica a nossa existência, dá pistas para o futuro e enche-nos de responsabilidade. “There is 2 ways trought life: the way of nature and the way of grace”. A natureza é tudo o que nos rodeia. Temos tendência em pensar na natureza como a vida selvagem. A natureza é tanto a vida vegetal, como é a vida animal, todas as espécies deste planeta (incluindo a humana), as cidades, as estradas, os prédios, a tecnologia, enfim natureza é o que é expectável. A graça é o que faz a diferença. Só a graça pode fazer a diferença. Se for pela natureza nós não teremos futuro como espécie humana, teremos um comportamento de espécie vencedora que esgotou todos os recursos à sua volta, eliminando-se a si própria por essa razão. Se calhar é mesmo assim, por ciclos até que uma geração de espécie evoluída quebre o ciclo. Mas o ciclo não pode ser quebrado seguindo as regras da natureza. Terá de ser algo diferente. Sóo amor pode salvar o mundo.
É um excelente filme para ver várias vezes durante a nossa vida, para ouvir as mensagens e para recordarmos qual é o caminho que deveremos seguir. Fenomenal, transcendental, uma experiência espiritual e existencial. O Malick é o novo Kubrick. Um filme único na história do cinema. Emociona-nos durante o filme (a minha irmã chorou compulsivamente durante o filme), e depois de acabar.
A religião e a espiritualidade é e será sempre importante. Embora eu seja pessoalmente duvidoso, agnóstico, acho que é bom nos interessarmos e acho bom a espiritualidade, e principalmente acho bom o amor. Sóo amor pode salvar o mundo disse uma pessoa um dia. E como ele tem razão. Este filme vai direto ao subconsciente.
Faz-nos ter noção do que é importante e faz-nos chorar por nós todos. É uma autentica obra de arte. O cinema deixou de ser 7ª arte com o Tree of Life. subiu um escalão. “Unless you love, your life will flash by… ”
O nosso próximo passo na evolução só pode ser a Graça. A tecnologia, o desenvolvimento, o crescimento, o capitalismo já eram. Bem vindos a uma nova era. E o Tree of Life esta ai para nos mostrar, recordar e principalmente Reenquadrar.
Sóo amor pode salvar o mundo.
2- DRIVE
O melhor filme dos anos 80 realizado em 2011. É inacreditavelmente 80’s no look and feel, na grandiosa banda sonora, na fotografia exemplar, na realização imaculada. Mas no meio deste ambiente surgem elementos modernos como um i-phone e pensa-se que é uma enorme “gaffe”. E começamos a aperceber-nos que não, e que o filme passa-se mesmo nos dias de hoje e as fabulosas músicas 80’s da banda sonora são efetivamente músicas feitas agora.
O Ryan Gosling cria a personagem mais cool dos últimos anos e possivelmente uma das personagens mais cool da história do cinema (ombreando com Marlons Brando’s e James Dean’s da vida). É um filme ultra-violento mas esta violência não é gratuita, aparece onde deve aparecer e é ultra realista sem esconder nada, mas coerente com a pureza do próprio filme.
Quem gosta de jogos de vídeo, conhece e já jogou um dos grandes monstros da industria dos vídeo jogos que neste momento já tem melhores performances que muitos filmes de Hollywood. Refiro-me à série Grand Theft Auto. O drive é a melhor adaptação do GTA para o cinema que alguma vez se fará. Mesmo sem querer, criaram a melhor adaptação de um vídeo jogo de sempre.
O Ryan Gosling, ator e mentor do projeto, foi ao Conan e explicou que quando estava a procurar o realizador para o filme falou com vários numa esplanada em LA, e que quando chegou à vez do Nicolas ficaram calados o tempo todo e quando ele tentava que o Nicolas lhe dissesse o que via no filme, o realizador simplesmente ficava calado. Sem esperança, o Ryan desistiu e como era a ultima entrevista perguntou ao realizador se queria uma boleia. Quando iam no carro começa dar o “I can fight this feeling” (grande clássico dos 80’s) e o Nicolas começa a chorar e diz: “o filme é isto, o filme é isto, tu a conduzires em LA, esta música, é isto, é isto”. O Ryan contratou-o imediatamente.
O Drive é um imediato filme de culto, absolutamente original. O segundo melhor filme de 2011.
3- DESCENDENTES
Descendents e Tree of Life têm muitos pontos em comum. Ambos se preocupam com a evolução humana e ambos nos tocam profundamente ao passar essa mensagem. George Clooney é um homem normal com os seus problemas do dia a dia. Mas esses problemas são o que fazem a nossa vida. 90% da população da terra são pessoas normais. Geralmente, a vida normal com os seus problemas normais não tem interesse no cinema.
É aí que o Alexander Payne e o Clooney tem o seu toque de génio. Isto porque os nossos problemas “normais” estão carregados de emoções e sentimentos. Ao conseguir capta-los pode-se fazer um filme sobre o everyday life tão poderoso como este.
As personagens são praticamente todas inesquecíveis e quebram constantemente os padrões standard de comportamento que se espera de um tradicional filme e de uma forma tradicional de mostrar este tipo de personagens. A personagem do Clooney é inspiradora no sentido que nos mostra e ensina o melhor que um ser humano pode ser, mesmo sem ter a certeza de estar a fazer o que está correto e constantemente fugindo da sua zona de conforto. Quando se espera que ele quebre e descarrile, ele avança e segue o caminho sempre mais acertado.
Quando se espera que a filha teen seja um obstáculo dramático ao pai, ela torna-se uma aliada poderosa e uma das melhores performances do filme. Quando se espera que o amigo da filha seja um total atrasado mental apenas existindo para os gags cómicos, ele torna-se uma personagem central e fundamental para união da família durante esta crise aguda onde se encontram. Até a ultima decisão da personagem de Clooney é inesquecível e acertada. Até essa decisão tem a ver com o Tree of Life. Se queremos ser a espécie mais evoluída, temos de seguir o caminho da graça e não o caminho da natureza.
Não podemos ter o comportamento de vírus e temos de saber equilibrar a vida neste planeta. Sem qualquer sombra de dúvida o melhor filme de Payne e um dos melhores filmes do ano.
4- GIRL WITH THE DRAGON TATOO
“Fuck you, you fucking fuck” é a frase na t-shirt da Lisbeth quando o Blomkvist a vê pela primeira vez.
Diz-se que o Fincher fez questão de colocar a Ronney Mara com esta t-shirt como resposta aos vários fãs do filme sueco que se prontificaram a atacá-lo desde o momento em que ele oficializou que ia fazer o remake. O Fincher é assim. E é por isso que é cada vez mais um dos meus realizadores preferidos.
Este filme tem muitos pontos de ligação com a sua filmografia. A investigação obsessiva e incansável, que já vem do Seven e explorada até ao pormenor no Zodíaco (o melhor filme sobre obsessão alguma vez feito?). A nova era tecnológica, o seu poder, a sua grandiosa ameaça à nossa privacidade, já presente no Social Network. A Lisbeth, assim como o Zuckerberg são produtos desta nova era, sem attachments emocionais, altamente racionais e frios são o espelho de uma nova era que o Fincher tão bem tenta explicar através destas personagens fortíssimas e sempre tão bem representadas. A Lisbeth e o Zuckerberg são a face da mesma moeda e o toque genial de Fincher vai ao ponto de ela ter sido a namorada do Zuckerberg no Social Network.
Esta abordagem meio humana, meio maquina remete-nos para o universo Cyborg e a Lisbeth remete-nos para este universo (muito mais que a congénere sueca) com uma homenagem obvia ao rei dos filmes sobre Cyborgs. Quando a Lisbeth está a castigar o seu tutor, pinta os olhos de negro, remetendo diretamente para o Cyborg da Daryl Hanna no Blade Runner.
Eu gostei muito do filme sueco (especialmente do primeiro). Mas todos os aspetos deste filme são melhores que o filme original. A fotografia, a realização, a art direction (fabulosa), a banda sonora (estrondosa), a atriz (mais frágil e vulnerável o que a torna ainda mais interessante), o ator (o Daniel Craig é muito melhor que o seu equivalente sueco), a empatia entre os dois, o espetacular Christopher Plummer, ou seja , tudo o que eu adorei no filme sueco foi exponenciado neste filme tornando-o quase automaticamente um dos meus filmes preferidos do ano.
O genérico de abertura é inesquecível. Dá-nos logo um murro no estômago, com imagens a lembrar um genérico de um James Bond muito negro o que não deixa de revelar ao mesmo tempo um sentido de humor muito subtil do Fincher.
As (falsas) aparências são um tema forte, bem explorado e central ao longo do filme. Tudo o que parece não é, e uma família riquíssima da sociedade sueca não passa de “thieves, misers, bullies, the most detestable collection of people that you will ever meet… My family”, como tão inesquecivelmente diz o Christopher Plummer ao Daniel Craig quando o esta a contratar para investigar a morte da sua sobrinha. O filme passa-se num registo e formato clássico de investigação de ambiente fechado, confinado a um espaço físico limitado, num típico who’s who que se vai desvendando ao longo do filme à medida que a excelente equipa Lisbeth / Blonkvist vão desbloqueando as pistas que até então ninguém tinha conseguido desvendar.
A relação dos dois funciona na perfeição, sentindo-se de imediato a química e o respeito intelectual entre ambos. A anti-sociabilidade dela é empática com o espetador pois num mundo muitas vezes de falsas aparências sabe bem ver a forma como ela lida com os “humanos” com total falta de obrigação social de simpatia ou respeito e mostrando apenas essa faceta quando realmente reconhece valor em alguém.
O David Fincher também já nos habituou a fotografias fenomenais e a ambientes únicos. Dragon Tatoo mantém esta fasquia bem alta com cenas e ambientes inesquecíveis.
5- ARTISTA
Vida de artista… é dura, esgotante, hilariante, depressiva, concorrencial, brilhante, sedutora, viciante, apaixonante, letal, suicida, amorosa… e… sem som… é assim a vida de artista.
Há coisas muito boas no artista, e uma delas é esta. É mostrar a essência da vida de um artista, que pode ser um actor em Hollywood, como pode ser um escritor, pintor, escultor, basicamente todas as pessoas que vivem do seu talento e dependem dele e do publico para viver (ou mesmo que não dependem para viver, dependem sempre do publico para receber reconhecimento e para conseguir tocar as pessoas).
Por mais que um artista negue, o objetivo ultimo de qualquer artista é de partilhar a sua visão do mundo, o seu talento com o que os rodeiam, com a sua sociedade e no limite o mundo. Quanto maior a abrangência da partilha do talento de um artista mais realizado ele se sente. E por isso, a vida de um artista esta sempre intimamente ligada com este sentimento e como o talento geralmente não aparece sempre da mesma forma durante a vida, e principalmente não se consegue sempre adaptar as mudanças, é normal ver altos e baixos na vida de um artista.
E se o melhor para um artista é ter reconhecimento, então o pior da sua vida é não o ter. Estes altos e baixos são interpretados brilhantemente pelo Jean Dujardin, alias esse é o outro ponto fortíssimo deste filme. O casting. O Jean Dujardin tem uma performance brilhante, e já é famosa a historia dele com o Jim Carrey numa famosa pizzaria em LA durante as filmagens do artista. Sem se conhecerem um ao outro, o Jean Dujardin senta-se na mesa do Jim e começam a fazer um concurso de caretas, e diz a lenda que o Dujardin saiu vencedor.
Através das expressões faciais e corporais, dá-nos uma das melhores performances do ano, emociona-nos, faz nos rir, faz nos pensar, cria um personagem fortíssimo e basicamente aguenta com o filme todo as suas costas. Ela não fica atrás e juntos são sem dúvida o par mais forte do ano. O outro trunfo do artista é mostrar que contar uma história não tem obrigatoriamente a ver com diálogos elaborados ou efeitos especiais.
É uma lição sobre como contar uma boa história. Um filme mudo e a preto e branco no século XXI? How much out of the box can you be? A banda sonora é espantosa remete-nos automaticamente para a grande tradição cinematográfica americana, para os grandes clássicos fazendo-nos relembrar o grande papel do cinema ao longo da nossa vida. É, assim como o Hugo, uma homenagem ao cinema.
Leva-nos para os primórdios do cinema, para os clássicos de sempre, para o film noir (quem não se lembra do Sunset Boulevard ao ver este filme) mas ao mesmo tempo liga-nos ao nosso tempo quase como uma viagem no tempo, com um casting brilhante, com uma realização sem falhas e com pequenos apontamentos que traduzem um domínio do melhor que se faz no cinema atualmente (a cena do sonho onde ele se apercebe que tudo tem som menos ele é genial).
É um notável exercício de como lidar com a mudança que é a única constante da vida, principalmente no cinema. E é um filme singular e especial. Nomeado para 10 Óscares e mais 77 nomeações para outros prémios de cinema e 53 prémios ganhos é caso muito sério de sucesso em 2011.
6- HUGO
Magia. Hugo é magia. Tudo no Hugo é magia, o ambiente é mágico, a história é magica, a história é cinema e o cinema é magia. A história do cinema nasceu de mágicos… Literalmente. E o Scorcese fez literalmente magia com este filme.
É a homenagem ao cinema por excelência e se vamos querer uma referencia no futuro que preste esta homenagem, o Hugo vai sê-la. Esta homenagem só poderia vir de 3 pessoas neste momento em Hollywood, verdadeiros amantes do cinema em todas as suas vertentes e verdadeiros conhecedores da arte, e autenticas enciclopédias ambulantes de cinema. Estas 3 pessoas são o Spielberg, o Scorcese e o Tarantino.
Esta homenagem sincera surgiu pela mão do Scorcese e ainda bem porque é um filme mágico. E o que mais poderia ser para prestar esta homenagem? A fotografia, os efeitos especiais/3d e a art direction são 3 dos principais elementos do filme que traduzem este ambiente de absoluta magia que se sente especialmente no principal habitat do filme que é a estacão de comboios parisiense. A perspetiva de uma criança abandonada, a viver numa estacão de comboios, com constante receio de ser apanhada pela policia consegue recriar melhor um ambiente Oliver Twist que o próprio filme do Polansky.
Esta criança tem muito de autobiográfico e representa a infância isolada do Scorcese e a paixão pelo cinema que nasceu com ele em tenra idade onde se refugiava nas salas de cinema, fascinado com as inúmeras histórias de outros mundos, outras pessoas, outras realidades que o transportavam para outros contextos e o ajudavam a viver. O Hugo, apesar do seu abandono, da fome e da tristeza, refugia-se nos seus vários esconderijos da estação de comboios que lhe permitem espiar a vida das pessoas que lá trabalham, que têm as suas vidas, os seus amores, os seus desgostos, as suas tristezas, as suas histórias. E o Hugo conhece-as todas sempre com uma perspetiva de voyeur, mas ajuda-o a viver. Tal como o Scorcese, as histórias são a razão da vida do Hugo.
E é através destas histórias e destas pessoas que o Hugo descobre o seu caminho e o seu destino. Tal como o Scorcese. E o destino deles é e foi… Mágico. A forma como ele filma estas histórias é simplesmente maravilhoso, relembrando muitas vezes os filmes mudos. O ator que representa o Hugo tem um papel incrível e apesar da idade merecia estar nomeado. É ele que comanda o filme, com uma sinceridade e emoção surpreendentes. É por ele que tudo faz sentido, é ele que consegue transmitir a tristeza do abandono, é ele que consegue transmitir o deslumbramento da magia, a perseverança de perseguires o teu destino, é ele que consegue transmitir a dor do crescimento, o abandono da ingenuidade, a força necessária para conseguires sobreviver. Por vezes faz lembrar o grande e definitivo filme sobre o fim da idade da inocência: A Viagem de Chichiro.
7- HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS PART 2
É um fecho de uma saga ao nível dos melhores, ao nível dos 2 melhor fechos de sagas jamais feitos. O Regresso do Rei e o Toy Story 3 (nem o Padrinho, nem o Star Wars, nem o Alien conseguiram fechar tão bem como estes 2). Harry Potter and the Deadly Hallows fecha na perfeição um verdadeiro marco na história do cinema, só não se eleva tanto como os 2 exemplos dados anteriormente porque a saga em si não é tão qualitativamente boa. O Harry Potter tem 2 grandes filmes na saga (o terceiro e o ultimo) e fora isso cumpre e entrega filmes competentes mas sem estar ao nível dos melhores.
De qualquer forma tem o grande feito de manter o casting imaculado ao longo dos anos e de se manter focado na história e nos seus personagens. O conceito central do Harry Potter (És sempre mais fraco sozinho) foi explorado ao longo dos oito filmes atingindo o seu expoente máximo no ultimo filme. Em equipa, em grupo, com os teus amigos, com a tua família, com os teus colegas, com os “teus” és sempre mais forte.
Ao longo dos vários filmes, o HP embora predestinado nunca seria ninguém e nunca conseguiria atingir o que atingiu se não fossem os amigos e colegas. Neste ultimo filme isso é mais evidente que nunca e tudo acaba bem pela contribuição de todos. O HP é só mais um a contribuir para ao sucesso da batalha. E que batalha. A batalha final é simplesmente inesquecível. Soberbamente bem filmada com planos perfeitos e com efeitos especiais milimetricamente utilizados, nunca abusando dos mesmos, tornando o CGI mais real que nunca.
É sem qualquer duvida o melhor filme de ação e aventura do ano. Digno do melhor Spielberg. Um carrossel de ação, sempre com a aventura e a história a comandar os destinos do filme. Quase que se pode ver isoladamente, sem ter visto os filmes anteriores e é um verdadeiro prazer para qualquer fã de cinema e mais especificamente de filmes de aventuras. O HP fecha com chave de ouro, com o melhor filme da saga, e por isso mesmo torna-a mais forte e um marco incontornável na história da sétima arte.
8- LA PIEL QUE HABITO
Este foi o ano dos veteranos. Malick, Scorcese, Allen e Almodôvar no top 10.
Depois de tantos anos a fazer filmes, com altos e baixos na inspiração, é obra que continuem a conseguir ter filmes com esta qualidade. Mas o facto é que têm, e estão de parabéns por isso. O Almodôvar é como o Allen. Qualquer novo filme é um acontecimento e mesmo que seja de inspiração media é sempre um acontecimento e é sempre bom ir vê-los. Neste caso, depois de algumas inspirações medias, o Almodôvar volta à grande forma com um dos seus filmes mais diferentes, mas ao mesmo tempo com tudo a ver com ele.
Para começar, é a melhor história do ano. Uma daquelas histórias que valem por si, uma daquelas histórias que seria interessante em qualquer formato que fosse contada. Imaginada de raiz pelo genial realizador, com cenas e personagens inacreditáveis, com varias cenas surreais durante o filme, com twists constantes e com um final surpreendente é uma história com principio meio e fim que nos deixa interessados desde o inicio, e que acaba em apoteose.
Como os grandes livros, desde a primeira cena até à ultima, o Almodôvar vai deixando sempre pequenas pistas e vai sempre desvendando um pouco da história, de uma forma que ficamos sempre com vontade de saber e descobrir mais: Uma perfeita gestão da exposição.
Junta elementos de terror, drama, surrealismo, violência e aborda a questão do transexualismo já bem patente no histórico de filmes dele e que deixa uma marca bem clara que é um filme do Almodôvar. A nível técnico está cada vez melhor, com uma realização imaculada, com uma fotografia notável e com uma edição brilhante responsável por este efeito “cenoura” que nos deixa sempre mais e mais interessados ao longo do filme. Os atores estão muito bem dirigidos com performances brilhantes (grande destaque para António Banderas que o Almodôvar fez questão de lembrar com este filme que é um excelente ator). Com muita pena minha não está sequer nomeado para filme estrangeiro, mas os Óscares valem o que valem. É um dos melhores Almodôvar dos últimos anos, e uma excelente história, muito bem contada/filmada para quem o cinema é antes de tudo o resto um grande canal de storytelling.
9- MIDNIGHT IN PARIS
O melhor Woody desde Match Point. Whatever works também foi muito bom mas nem chegou ao meu top 10 do seu ano. Midnight não é tão bom como um match point (mas o match point é talvez o quarto melhor filme de Allen e com 47 filmes, é difícil de chegar ao cimo da tabela).
O Owen Wilson é perfeito para o típico personagem neurótico Alleniano o que nos faz imediatamente sentir em casa. O humor está ao melhor nível de Woody Allen. A sensação de inadaptação de Gil naquele universo onde vive esta muito bem conseguida e cheia de piada. Mas até aqui estamos no mais do mesmo (que com o Woody Allen já é ótimo!!), mas este filme destacou-se porque o melhor ainda esta para vir.
Quem iria lembrar-se que numa esquina de Paris, à meia noite, aparece um misterioso carro que leva o nosso personagem para uma paris dos anos 20. Onde ele encontra os seus ídolos e incontornáveis personagens da arte e cultura do século XX. Como escritor e artista que é, fica viciado nestas experiências e começa a desaparecer todos os dias para apanhar a misteriosa limusina da meia noite e para conviver com todas estas personagens. O Woody explora estas personagens históricas fazendo-as interagir com o nosso personagem. Esta vida e personalidade dada a todas estas personagens (F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Salvador Dali, etc) está muito bem conseguida com imensa piada e ao mesmo tempo com muito respeito pelas mesmas, e até eventualmente com alguma assertividade histórica.
Essa intimidade com que vivemos com todos eles faz enorme diferença pois assim como o Gil, ficamos com a sensação de estar a conviver com os grandes vultos da arte do inicio do século XX. Para além da excelente ideia e de como é explorada, com um excelente argumento e realização, o filme tem uma mensagem importante.
É óbvia demais, ficaria mais interessante se fosse mais subtil, mas não deixa de ser a grande mensagem do filme e serve muito bem para fechar a história com chave de ouro. A determinada altura o Gil começa a reparar que as personagens com quem tão viciadamente convive, os seus ídolos, se sentem também inadaptados e que falam dos outros tempos como se fossem melhores do que os que vivem atualmente. Ele entretanto apaixona-se pela Adriana (Marion Cotillard), e viajam ainda mais para o passado. E quando chegam ao final do século XIX, conhecem os notáveis Lautrec e Matisse, e também eles se queixam dos tempos que vivem e que o passado era muito melhor.
A mensagem é óbvia, mas fecha bem o filme e não deixa de ser uma mensagem útil principalmente para quem não reage bem a mudanças. No caso dos artistas surge muito esta sensação, mas sabemos como facto que isso não é verdade e que todas as épocas tiveram filmes, livros, músicas, pinturas brilhantes. O mesmo é valido para quem diz que a evolução tecnológica não faz sentido e que o passado é que era. Quem vier mais à frente vai dizer que o facebook é que era e que a nova moda já não faz sentido. A mudança é a única constante da vida e quem acha que tudo vai ficar na mesma vai viver frustrado e a lamentar o passado. O grande Woody conta uma história cheia de humor, altamente original e com esta mensagem fabulosa. Mais um grande filme de 2011 que é uma carta de amor à cidade da luzes.
10- JOSE E PILAR
José e Pilar, consegue uma proeza provavelmente poucas vezes conseguida. Consegue acompanhar de inacreditavelmente perto, a vida privada de um dos maiores intelectuais de sempre e a relação intima e verdadeira de 2 pessoas feitas uma para a outra, de um amor maior do que a vida, de um amor que dá sentido à vida, um amor incondicional e de infinito respeito mútuo.
Mas o realizador consegue uma proximidade tal com o génio e com o casal, que consegue que a câmara esteja sempre lá. Quando eles falam, quando eles vêm televisão, quando eles se preparam para sair, quando eles vão passear, enfim, ao longo de um período muito alargado de tempo, eles vivem os 3, e em inacreditável sintonia e intimidade. E o mais surpreendente de tudo é que o faz na fase final da vida dele, o que torna ainda mais intensa esta intimidade a 3. Se não fosse esta cumplicidade, nunca se conseguiria alcançar tão profundamente a pessoa que foi José Saramago e uma das maiores histórias de amor de todos os tempos.
Com este filme e especialmente para os portugueses, fica-se com a noção de como temos ainda que crescer como sociedade, como somos tão fechados ainda ao mundo e quão negativamente conservadores continuamos a ser. É uma chamada de atenção para o nosso povo que não aceita pessoas polémicas, com pelo na venta, que desafiam constantemente e que criticam verdadeiramente as instituições e o modo de vida de uma sociedade.
É obviamente um filme sobre a morte, e sobre a tranquilidade com que um ateu verdadeiramente assumido a enfrenta. É impressionante a forma com que Saramago aceita a morte reconhecendo-a como “a diferença entre viver e morrer é a diferença entre estar e não estar” e é assim, nem mais nem menos, que Saramago a vê. Mas para ele é natural, é assim a vida, não há nada a fazer, e não há que ter medo. Há que se despachar para aproveitar o pouco tempo que ainda tem para fazer o máximo. O homem com a enorme inteligência que tem não poderia deixar de ter imenso sentido de humor, apesar do seu feitio altamente melancólico e até agressivo, não deixa de reparar nas coisas mais simples da vida, aprecia profundamente as pessoas honestas, boas, limpas de preconceitos e com cabeças esclarecidas.
Perante uma plateia, Saramago diz o seguinte antes de morrer (ou melhor antes da primeira forte recaída que para ele e todos se pensava que seria a morte):
“Se toda a gente boa… se toda a gente… amante da beleza, se toda a gente amante do justo e do honesto… pudesse… …. reunir esforços e opor-se contra a barbárie do mundo, o mundo seria capaz de dignificar o homem… o ser humano que somos.
O mundo… talvez… pudesse ter um futuro… muito obrigado a todos”
Só por isto, este filme já valeria a pena, mas existem tantas frases e tantos pensamentos que ver este filme várias vezes irá sempre ser uma fonte de aprendizagem:
“Pilar… Encontramo-nos noutro sitio…”
“A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar”
“Todos os tempos têm coisas boas, todos os tempos as tiveram péssimas. Mas como comunidade a espécie humana é um desastre. É um desastre. Então é muito difícil dizer que todo o tempo passado foi melhor”
Um filme de exceção de 2011 em Portugal e no mundo.
Uma história difícil, aparentemente, de levar para o grande ecrã. Pouco “sumo” para criar uma longa-metragem. Os excelentes diálogos, a forma como a história é contada e as mensagens que são passadas, conseguem criar uma obra excepcional que prende o espectador do principio ao fim, e mais importante que isso, faz pensar e refletir sobre os tempos que vivemos.
Todas as personagens foram pensadas ao pormenor. Até os dois empresários que inicialmente investem no facebook foram bem escolhidos. Um branco e um negro, com um ar sharp, inteligente. Com ar de empresários que fazem a diferença neste novo mundo. O cuidado de incluir um indiano no grupo “rico” dos gémeos. Um monumental ator para personagem principal, uma excelente aposta no Justin Timberlake, e podíamos continuar a apontar excelentes escolhas para todas as personagens que aparecem no filme.
O Jesse Eisenberg é também uma razão essencial para ver o filme e um dos principais responsáveis para o sucesso do mesmo. Encarna o personagem ao nível dos melhores. Mereceu a nomeação. A edição, a banda sonora e a fotografia (que com o Fincher andam sempre de mãos dadas) são do melhor que ele nos tem habituado, que é suficiente para explicar o nível de qualidade deste filme. A banda sonora foi elaborada pelo homem dos NIN e é fabulosa.
As mensagens são o mais importante, embora sejam subtis ao longo de todo o filme. Poder e Solidão, já se falava do mesmo no Citizen Cane. Genialidade e Talento, já se falava do mesmo no Amadeus. Amizade e Traição, já se fala desde as tragédias gregas. Uma nova era e uma nova forma de comunicar, muito importante para quem não se está a aperceber disso (tudo é imediato nos dias de hoje e a informação cada vez corre mais rápido). Como em todos (ou quase todos os filmes do Fincher), a Obsessão e a importância da mesma na nossa vida (ele próprio é obcecado pelo seu trabalho).
Por fim, e mais importante, o poder da juventude. Agora mais do que nunca, os jovens têm poder real. É uma novidade e realidade dos novos tempos, ainda descurada por muitas pessoas. Das mais poderosas empresas da atualidade pertencem a jovens. Por todas estas razões considero o Social Network a melhor realização e o melhor filme do ano… E tem a melhor música de trailer da história do cinema.
2 – INCEPTION
Tenho um (bom e grave) problema com o Christopher Nolan. É um dos meus realizadores preferidos desde o seu primeiro filme (excecional Memento), como deverá ser um dos realizadores preferidos para todos os que amem cinema, muito simplesmente porque ele não dá grande margem para dúvida. Os filmes dele são tão bem feitos, tão equilibrados sem serem politicamente corretos que atraem todos os apaixonados por cinema.
Nessa medida faz lembrar um monstro da sétima arte e o meu realizador preferido de sempre: Kubrick. O problema que eu tenho com o Nolan é o Dark knight. Na minha opinião atingiu um patamar tão elevado (o Dark Knight deve estar no meu all time top 10) que é difícil ver os filmes pós Dark Knight sem ter as expectativas inatingíveis.
Mesmo considerando este factor, o Inception consegue vencer. Tem um argumento original (o Dark Knight também) e um universo e personagens originais (o que já não acontece com o Batman). A história está excecionalmente bem conseguida. Complexa, que pede várias visualizações, mas que não deixa de satisfazer os mais variados públicos na primeira vez que se vê.
Introduz as pessoas no conceito, o público percebe e fica satisfeito, compreende que é um filme com várias layers, não as apanha a todas na primeira visualização, mas entende que é um filme suposto ver várias vezes. O Leonardo Di Caprio está mais uma vez em grande forma, e a realização é realmente notável tirando o partido máximo de todas as áreas do filme: Casting, efeitos especiais, fotografia, montagem, argumento, banda sonora, etc. Tecnicamente é assombroso, tendo recolhido a maioria dos prémios destas áreas até agora.
O filme tem mais outro mérito bem importante. Contrariando o hábito cada vez mais irritante dos estúdios de lançarem todos os bons filmes na altura dos Óscares, o Nolan lançou-o a meio do ano e não teve medo de amadurecer na cabeça dos críticos. Amadureceu bem e é o único filme sem medo que chegou à época dos prémios sem beliscões e em grande forca.
3 – TRUE GRIT
Os manos voltaram a fazer uma obra-prima. É mais forte do que eles. Depois de Fargo e No Country for old men (também este um grande western mas passado nos nossos dias), os Cohen fazem a sua terceira obra-prima. Os filmes dos Cohen, e estes em particular, são lições de cinema.
A história, a direção de atores, a fotografia, o editing, o costume design, o som, a música, tudo é executado na perfeição e com uma sabedoria de quem ama e percebe muito de cinema. O sentido de humor dos Cohen trazem sempre uma componente original e tornam-nos únicos e verdadeiras obras de autor. O argumento é excelente, com diálogos de época construídos de uma forma inteligente prendendo o espetador do principio ao fim do filme, a história é cativante e tudo o que se espera de um western ao melhor nível.
O Jeff Bridges tem eventualmente o melhor papel da sua carreira, muito melhor que em Crazy Heart, e melhor que em qualquer outro filme que tenha visto dele. A sua voz esta praticamente irreconhecível, juntamente com a sua imagem que encarna totalmente o wild and dangerous west da altura. A atriz principal é magnífica, uma performance digna de Óscar (será uma injustiça se perder para a Helena Boham Carter), e é uma das principais atracões do filme. É definitivamente o ano das mulheres. Não me lembro de um ano tão bom para as mulheres como este: Black Swan, Kids, Love and other drugs, True Grit, Kick Ass, Winter’s bone… o difícil é escolher.
O resto do casting está muito bem escolhido com os já habituais (nos filmes dos Cohen) atores secundários escolhidos a dedo e que fazem toda a diferença no resultado final. Feios porcos e maus como se pretende de um bom western (conceito introduzido pelo génio Sergio Leone). A dinâmica e química entre o Jeff Bridges e a Hailee Steinfeld resulta ao nível das melhores duplas da história do cinema.
A edição poderá ser mesmo a melhor do ano. Os Cohen montaram o filme magistralmente contando a história de uma forma fluida, clara, inteligente sem uma única cena fora do sítio, sem desperdícios. Os únicos desperdícios foram a favor do humor o que se compreende no sentido que trouxeram obvias mais valias ao filme (inesquecível cena do Rooster e ela à espera na neve do suposto perseguidor que quando aparece se revela uma personagem inesquecível). Menos “arte” que no Country, menos “humor” que no Fargo, mas mais filme (no geral) e mais história. A terceira obra-prima dos Cohen está aí. Esperemos que continuem por muitos e longos anos, considerando que são dos realizadores mais criativos e talentosos da atualidade.
4 – TOY STORY 3
Depois do Wall-e e do Up, a Pixar tinha colocado a fasquia tão alta, que mesmo com todo talento que emana de San Francisco Bay, eu e muitas outras pessoas interessadas nesta área da sétima arte, duvidavam seriamente que a Pixar conseguisse superar as expectativas.
Com o Toy Story 3, a Pixar conseguiu fazer qualitativamente o melhor filme até à data como conseguiu alcançar a marca do filme de animação com a maior receita de bilheteira de todos os tempos (1 bilião de dólares worldwide).
Conseguiram colmatar todas as falhas que ainda subsistiam nos filmes anteriores. Ao Wall-e faltava-lhe o lado humano podendo ser considerado um filme mais “frio” e ao Up embora tenha 2 cenas absolutamente transcendentais tinha o “problema” de poder ser interpretado como um filme muito infantil. O Toy Story 3 ultrapassa estas questões, produz o melhor filme da trilogia, supera as expectativas e alcança desta forma a coroa da Pixar.
Primeiro que tudo, os temas tratados no filme são universais e aí reside a genialidade do mesmo. Temas acessíveis e intemporais para todas as pessoas desde os 8 aos 80 anos. O abandono, a amizade e a mudança são abordados de uma forma bem profunda e ao mesmo tempo ligeira o suficiente para não o tornar demasiadamente dramático
A importância da adaptação à mudança, de largar o passado para poder abraçar o futuro. Depois temos os personagens… Fabulosos… Não existe um único personagem que não apeteça ver e rever. Depois temos o humor. Depois temos a história. É um fabuloso filme de aventuras. Ao nível dos melhores filmes de aventuras. Ris, choras, refletes, entusiasmas-te, torces pelos personagens, não dás pelo tempo a passar e ficas com pena quando acaba. O que é que se quer mais no cinema? A Pixar volta a colocar a fasquia mais alta e torna-se cada vez mais um marco incontornável na história do cinema e uma das organizações mais criativas do mundo.
5 – GRAN TORINO
A par do Imperdoável, Mystic River e Million Dollar Baby, é um dos mais perfeitos filmes de um dos meus realizadores preferidos. O filme fala de uma das minhas frases favoritas de sempre que é: everything you know is wrong. Até no final da vida se pode aprender que tudo o que se fez e tudo o que se é, está errado. E o mais impressionante é que nesse mesmo final da vida, há lugar para arrependimento. Podemos aprender a fazer o que está certo, podemos desfrutar desse momento e sermos felizes. Podemos dar o melhor de nós e fazer uma coisa transcendental que é ao mesmo tempo redentora e altamente solidária e caridosa. Podemos salvar a vida de uma pessoa. E tudo isto é interpretado pelo grande Clint no, talvez, melhor papel da sua carreira e deixa o espectador sem palavras. Quem tem dúvidas sobre o que anda cá a fazer neste mundo, veja este filme. O Clint explica.
6 – THE FIGHTER
É irritante que os bons filmes se acumulem todos no final do ano. Este filme é o caso. É possivelmente o filme que melhor descreve um ambiente saloio no seu expoente máximo. O bairro e as personagens onde decorre a ação são de um nível tão baixo que vale a pena ver para satisfazer a curiosidade. A recriação deste ambiente está perfeita. E isto por causa do excelente argumento, mas principalmente do fabuloso casting.
O gigante Christian Bale é dos principais responsáveis pelo nível de realidade saloia que o filme consegue atingir, mas todos estão fenomenais com um destaque especial para a mãe dos protagonistas principais. O que acaba por ser muito interessante é que, por mais diferente que seja a realidade onde tu vives, seja alta sociedade ou baixa ao seu mais baixo nível (que é o caso), vais acabar por ter sempre os mesmos problemas e as mesmas mecânicas.
A influência do meio onde vives e da tua família são sempre elementos importantíssimos na gestão da tua vida e que podem fazer a diferença entre o sucesso e o insucesso. Seguires o que tu achas que é o mais correto é quase sempre a decisão mais acertada e não o que o teu meio acha o mais correto. Lutares contra o teu meio exige sempre uma coragem muito grande, lutares contra as tuas raízes, contra o que te disseram sempre que era o mais correto. Essa luta por vezes é mesmo necessária e pode mudar a tua vida.
E neste caso a luta do Mark Wahlberg (ele também com um excelente papel) é inspiradora e torna o filme inspirador. O argumento é excelente com diálogos e personagens fabulosas que por vezes nos fazem lembrar os melhores “Scorceses”.
Às vezes os inimigos estão mesmo à tua porta, e só tens a ganhar se te aperceberes disso. Como o Bono disse, “Dá sempre atenção aos teus inimigos que eles vão durar mais tempo que os teus amigos”. A grandeza do argumento está no facto de manter os pés bem assentes na terra. Não assume os inimigos nem os amigos como óbvios e a família tem sempre um papel importante a desempenhar. Como na vida de cada um de nós, a família é sempre um elemento fundamental a gerir por mais que não se queira. Não há como “fugir” da família (para o bem e para o mal).
O Mark Twain tem uma frase absolutamente genial que é: “nunca subestimes a quantidade de pessoas que te querem ver falhar”. Neste caso podemos acrescentar, nunca subestimes a quantidade de pessoas que se estão nas tintas para ti. E se não fores tu a lutar pelo teu sucesso e pela tua felicidade nunca ninguém o fará.
7 – BLACK SWAN
Para quem gosta de arte e do meio artístico, gosta e gostará sempre de ver filmes sobre talento. Onde existe, como existe, como aparece, quem o tem e porquê. Os bons filmes sobre este tema nunca explicam, mas dão bons indícios com personagens (e atores) fenomenais que nos fazem ficar mais perto e de alguma forma perceber essa coisa maravilhosa (e na maioria das vezes penosa) que é o talento.
O Amadeus mergulhou-nos nesse mundo e o Black Swan também. Falo dos dois pois ambos exploram e associam a loucura e o sofrimento ao talento de exceção. O “Diário” de Chuck Palahniuck vai mais longe e diz que o talento é o resultado de um caminho de sofrimento. Sem esse caminho, ninguém alcança o talento de exceção. Gosto deste tema e por essa razão gosto automaticamente do Black Swan.
Para além disto temos uma transcendental atriz e performance, talvez das melhores performances que vi em cinema. E o mais engraçado é que com esta performance, a Natalie Portman encarna na perfeição a mensagem do filme sobre o talento.
Depois temos um excelente realizador, que o meu amigo e jovem realizador Henrique Pina muito gosta e com muita razão. Filmou e editou o filme com uma excelência exemplar, e nos dois últimos filmes dele, sacou a melhor performance de sempre dos seus respetivos atores principais. É um realizador superior e para acompanhar no futuro. A forma como ele filma a maioria das cenas, em especial as de bailado chegam a ser inovadoras. O filme é obsessivo e desconfortável o que é sempre bom e uma lufada de ar fresco nas dezenas de filmes confortáveis e maus que existem hoje em dia.
8 – KIDS ARE ALL RIGHT
É um filme importante. É um filme que contribui para que um passo seja dado na tolerância. Para quem é contra o casamento gay e contra a adoção de crianças por estes casais, este filme pode abrir algumas perspetivas (embora duvide que alguém que tenha estas convicções veja este filme, mas enfim).
Uma família com um casal homossexual pode ser muito mais funcional que uma família tradicional. Esta história é um bom exemplo disso. Desde que haja amor, respeito, responsabilidade e preocupação, qualquer criança pode ser bem-educada e crescer saudável física e psicologicamente.
O filme coloca outra questão para discussão. Independentemente das preferências sexuais do casal, TODAS as famílias são complicadas, mas ao mesmo tempo absolutamente essenciais. Muito importante a cena em que a filha chega às instalações da faculdade, tenta dar um ar independente mas desespera quando pensa que a família se foi embora sem se despedir dela. E emociona-se (emociona-nos) quando finalmente descobre que afinal só tinham ido estacionar o carro e abraçam-na intensamente.
O elemento desestabilizador desta família não podia ter sido melhor imaginado: O pai biológico dos miúdos, ultra cool, com uma vida sofisticada, com pinta, com uma empatia natural com eles, ou seja, o argumento perfeito para colocar esta família à prova. O Mark Ruffalo tem uma interpretação cirúrgica desta personagem. Todas estas interações estão excecionalmente conseguidas, nunca tomando partidos e passando sempre a mensagem que a vida e as famílias não são fáceis, mas há que tentar, pois são tudo pelo que vale a pena lutar.
E com famílias assim, os “kids” estarão sempre “all right”. Para finalizar… Aparece a atriz negra mais bonita da história do cinema. E a Anette Bening é muito provavelmente a melhor atriz do ano. À medida que se vai vendo o filme o único pensamento que vem à cabeça é que é impossível esta mulher não ganhar todos os prémios de representação este ano. Só há um ligeiro problema chamado Natalie Portman que poderá e deverá com toda a certeza, estragar a festa.
9 – SHUTER ISLAND
Depois de ter anunciado que iria deixar de trabalhar de vez com os estúdios norte americanos, o Scorcese lá voltou a fazer mais um filme em terras (e com o dinheiro) do tio Sam. Não é um dos melhores filmes do Scorcese, mas é um grande filme, melhor que muitos filmes dele e um dos melhores filmes do ano. As referências a géneros noir e terror são um dos pormenores mais interessantes do filme.
O Leonardo di Caprio tem uma representação impecável como já é hábito, e o filme é recheado por atores de topo com representações notáveis. A mente controla tudo inclusivamente a realidade que é vivida por cada um de nós. A premissa é forte e a história fortalece e explica bem esta perspetiva. O twist final é muito bem conseguido e pede uma segunda ou terceira visualização para desfrutar bem da história. A realização, edição, banda sonora é Scorcese no seu melhor. O filme é um excelente produto de entretenimento. Sem grandes mensagens de fundo, mas com todos os pormenores que fazem um grande filme de entretenimento. Estreou no início do ano e desde esse momento q se tem mantido acima da concorrência.
10 – SCOTT PILGRIM VS THE WORLD
Muitos parabéns a todos os que contribuíram para que este filme fosse feito. Pois todos eles, desde o realizador ao estúdio (e principalmente este) poderão estar a passar um mau bocado neste momento. O filme era complicado de vender e isso confirmou-se (em Portugal estreou em 2 salas a medo e nas 2 semanas seguintes desapareceu… Sem comentários).
E o que me agrada, e por isso dou os meus parabéns, é que acredito que todos os envolvidos tinham noção do risco que estavam a correr, o que lhes dá ainda mais mérito É assim com alguns filmes que ficam para a história do cinema, e será assim com este. É assim com todas as pessoas que querem arriscar muito, é assim com todos aqueles q fazem coisas absolutamente novas que ninguém entende numa primeira fase mas q depois se tornam clássicos
O filme é inovador. Respira novidade, qualidade, inovação, criatividade. Quebra as barreiras e os limites, mas dando a sensação óbvia que assim é que deve ser feito e que é assim que já se deveria fazer há muito tempo. Ao mesmo tempo recolhe referências de uma geração agora entre os 30 e 40 anos. Por último, e porque sou fã do género ainda mais relevância tem para mim pessoalmente, é a melhor comédia do ano. O Michael Cera torna-se cada vez mais uma referência absoluta na comédia moderna acumulando também outra das grandes comédias dos últimos anos. O genial superbad.
11 – WINTER’S BONE
Como é que vês o mundo com 17 anos? Como é que vês o mundo com 17 anos com 2 irmãos pequeninos e uma mãe doente? Como é que vês o mundo com 17 anos com 2 irmãos pequeninos, uma mãe doente e sem dinheiro sequer para comer? O que é que fazes (com 17 anos) quando a única coisa que pode salvar a casa onde vives é encontrar o teu pai que a hipotecou e fugiu por problemas relacionados com a justiça?
Nesta história, a personagem principal tenta encontrar o pai contra tudo e contra todos. “Todos” que neste caso é uma sociedade americana do interior profundo, uma comunidade fechada de hillbillys do pior e que à medida que o filme se vai desenvolvendo se percebe que fazem quase todos parte de uma gigantesca conspiração sobre o desaparecimento do pai.
O genial deste filme é que é tudo visto aos olhos de uma “criança” de 17 anos, sem maldade e com o único intuito de encontrar o pai para se poder salvar a si e principalmente a sua família. Estes 17 anos adultíssimos são maravilhosamente interpretados pela Jennifer Lawrence e deixa-nos com um nó na garganta. A história dá um twist inesperado, e o twist diabólico da história não é repentino e no final do filme como habitual. Vai se apresentando aos nossos olhos como se fossemos a protagonista principal sem maldade suficiente para perceber o que se está a passar à sua volta.
Quando percebe, reage com a coerência que se espera da personagem criada numa cena absolutamente notável a nível de representação. Há pessoas assim. Que se guiam pelo que esta correto, sem maldade e com uma coragem avassaladora. São as luzes nos locais escuros. São as pedras na tempestade que é a vida. São a inspiração para um mundo melhor. E filmes que passem essa mensagem também estão a contribuir de alguma forma para um mundo melhor.
12 – BAD LIEUTENENT
Nicholas cage is back in bussiness, na melhor forma desde os anos dourados (Wild at Heart, Arizona Junior, Leaving Las Vegas). Só por isto já vale a pena ver este filme. Acho uma enorme desconsideração por esta grande performance não ter estado presente nos vários prémios de cinema ao longo do ano. Mas o cinema é assim, os Cães Danados não tiveram qualquer nomeação para os Óscares.
Há filmes que não estão destinados a consensos. E este é definitivamente um deles. Centra-se numa personagem complexa e negra, mas muitíssimo bem construída e fenomenalmente interpretada. É também o melhor filme de Herzog dos últimos anos. A personagem do Nicholas Cage é absolutamente desprezível, negra, louca e moralmente negativa, mas consegue ser assim e ter poder real para interferir e mudar a vida das pessoas. O filme consegue de uma forma credível nos mostrar como uma pessoa assim pode perfeitamente viver em sociedade e manter o seu poder intocável.
Um bom retrato dos podres da nossa sociedade atual com o Nicholas Cage a credibilizar em absoluto a sua personagem e o filme como um todo. Outro pormenor muito interessante é como o Herzog filma a loucura do Nicholas Cage. Com quebras absolutamente inovadoras e loucas a meio do filme que nos surpreendem e nos deixam desorientados. Um grande filme e um grande ator em 2011 (espero que seja o comeback do nicholas cage que é um grande ator e ainda tem mesmo muito para dar).
13 – EXIT TROUGHT THE GIFT SHOP
Há filmes assim. Aparecem não sabemos bem de onde, por artistas que não conhecemos bem, em formato de documentário e que se tornam dos melhores filmes do ano. O artista em questão é um artista de street art reconhecidíssimo (Banksy) que decidiu fazer um filme/documentário. Foi inteligente o suficiente para saber o que era preciso para fazer um bom filme e com isso não comprometer a sua excelente carreira. E um bom filme, na sua base, só precisa de 2 coisas. Contar uma boa história e ter personagens cativantes. Tudo o resto vem atrás. Neste caso são real life characters com uma história transcendental. Aproveita para nos apresentar o mundo da street art, que provavelmente a maioria das pessoas desconhece mas que é altamente cativante, desafiante, inovador e criativo. Um dos mais refrescantes filmes de 2010.
14 – THE TOWN
Sem espinhas. É um excelente filme intemporal. O Ben Aflleck definitivamente tem de se dedicar à realização. Depois de um excelente Gone baby Gone (ainda melhor que este), continua a sua caminhada bem seguro e com grande talento. Filma e conta histórias reais de pessoas reais e em locais reais. Sente-se a realidade nos filmes dele sem com isso deixar de contar histórias interessantes. Descreve o meio pobre da sociedade americana (especialmente de Boston) de uma forma exemplar e coloca-nos entre estas personagens de uma forma que faz lembrar uma das melhores séries de televisão de sempre (The Wire). Consegue grandes performances dos seus atores. Ou seja, está no caminho certo e tem o talento que se pretende de um bom realizador. Penso que poderá vir a ter um filme ainda mais reconhecido se mantiver este nível para o futuro. Mais um bom realizador para se juntar a um naipe cada vez mais restrito.
15 – KICK ASS
O filme dos super heróis sem super poderes. Ao contrário do Scott Pilgrim que coloca o fantástico à frente (MUITO À FRENTE) da realidade, este é exatamente o contrário. A realidade está sempre a lembrar os super heróis que não tem poderes sobrenaturais. Mas que podem ter poder para ajudar (no caso dos bons) ou prejudicar (no caso do maus) se realmente quiserem e se se esforçarem para isso. O mote é este mas o filme é excelente pelo argumento e pela excelente comédia que se tornou. Este mote permite ter cenas hilariantes entre os vários personagens. O Nicholas Cage está excelente pela segunda vez este ano e este filme traz ao mundo do cinema uma das suas maiores promessas. Uma fenomenal performance de Chloe Moretz como Hit Girl. Uma miúda de 13 anos que transporta o filme às suas costas e que nos deixa absolutamente rendidos às suas capacidades. Adoro esta miúda como atriz e é um prazer vê-la em ação. Já fez este ano mais um filme “forte”, a adaptação do Let the right one in (que me recuso a ver por ter gostado tanto do original sueco) e de certeza que nos continuará a surpreender no futuro. Chloe Moretz. Um nome a seguir e a razão deste filme estar nesta lista e não o King’s Speech.
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