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Conta a tua história. A narrativa é uma das formas mais eficazes de interação humana.

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globos de ouro

Melhores Filmes de 2014

 

interstellar

1. INTERSTELLAR

Depois de várias vezes quase lá, o Nolan consegue o lugar cimeiro no pódio. Num ano que demorou a arrancar, o Interstellar foi o melhor.

Qualquer filme que consiga a proeza de me colocar a ler 300 páginas de física quântica e teoria da relatividade tem de ter relevância neste top.

E o poder para o conseguir vem do storytelling. Se este não fosse poderoso, o impacto de tudo o que ele tenta passar seria perdido.

E é mesmo pela ciência que este filme começou. O Kip Thorne, cientista conceituado, co-escritor do argumento e consultor em todas as áreas do filme, foi quem começou a esboçar a história há muitos anos atrás. O projeto passou por várias mãos antes, incluindo o Spielberg, mas foi com o Nolan que finalmente ganhou forma e vida.

Reestruturou tudo o que tinha a ver com ciência, simplificando a inclusão da mesma na história (inicialmente existiam vários Worm holes e Black holes) e introduziu o drama de um pai e de uma filha afastados pelo espaço tempo.

As questões científicas que o filme levanta são todas dentro do conhecimento humano até à data, o que torna tudo o que vemos no filme, possível de acontecer, provado e estudado pela ciência até agora. Algumas questões são especulativas mas não muitas. E mesmo a especulação é sempre com base num conhecimento muito concreto do tema analisado.

As construções visuais do Worm e Black hole são as mais fidedignas mostradas até hoje. E o filme gerou vários papers universitários de novas descobertas resultantes do estudo efectuado.

O filme lembra uma mensagem que se repetiu insistentemente ao longo deste ano em inúmeros filmes e que já tem vindo a ser hábito nos últimos anos, que é o alerta cada vez mais iminente da destruição do nosso planeta, algo que os países mais ricos teimam em ignorar em todos os fóruns mundiais que se vão realizando na vida real, mas que a classe artística lembra com cada vez mais intensidade e força de ano para ano.

E lembra-nos de olhar para estrelas e pensar no nosso lugar no universo.  Desafia o nosso espírito de descoberta. Lembra-nos de olhar mais para as estrelas e menos para os nossos smartphones. Faz-nos regressar aqueles tempos de infância onde ficávamos uma noite inteira a olhar para as estrelas e falar do que seria o universo e como este poderia ser infinito.

O livro “A ciência do Interstellar” de Kip Thorne é um complemento essencial a este filme e faz-nos continuar nesta aventura que é conhecer o universo que nos rodeia.

birdman

  1. BIRDMAN

Chuck Palahniuk tem um livro que se chama Diário. O Diário conta uma história de uma pintora que tem de sofrer fisicamente para atingir o seu expoente artístico. É o que eu gosto mais em Birdman. Michael Keaton tem de sofrer para se libertar da sua sombra “blockbusterniana” e para atingir o seu expoente verdadeiramente artístico. É a partir do momento que ele começa fisicamente a sofrer que a peça começa a ganhar corpo. É quando ele destrói literalmente a sua cara que se torna definitivamente num artista conceituado. Mudando curiosamente a sua aparência. É um assalto armado à praga blockbuster que vivemos. Blockbuster vs Broadway, arte vs pipoca, mediocridade vs intelectualidade, Michael Keaton vs Edward Norton.

O filme é um retrato da vida artística. As aspirações, as frustrações, as angustias, as superficialidades, o ator falhado, o ator de excelência e excêntrico, o agente frenético, a critica, a idolatração, as drogas, o poder da imagem para enaltecer e destruir, a insanidade, a adrenalina, a fúria e o desespero. Tudo condensado num único filme. Mais do que um retrato da vida artística é um retrato da condição humana.

É filmado num único take. E isso para além de ser mirabolante, vai fazer com que este filme seja estudado nas escolas de cinema. Iñárrito disse numa entrevista que tudo o que aparece no filme foi milimetricamente pensado. Nada foi improvisado.

E também disse que o filme está cheio de segredos. E duvida que alguém os descubra todos. Um exemplo é o ano em que o personagem principal deixou de fazer de Birdman (1992). É o ano em que o Michael Keaton fez na realidade o seu ultimo Batman (Batman Returns do Tim Burton).

Depois há o final, ou o closure como lhe quiserem chamar. Eu chamo-lhe final porque acho que o climax é na ultima cena, mas quem ache que o climax é o tiro no palco então que lhe chame closure.

A cena final é, para mim, onde a genialidade do filme é plena. Onde a virtude da ignorância se revela, onde o realizador goza com a nossa cara. Onde o realizador dá poderes supernaturais à personagem principal. É uma interpretação muito minha, mas se o filme é um assalto armado ao blockbuster, à pipoca, à mediocridade, é também uma ode à inesperada virtude da ignorância, e nesse aspecto, ele ter mesmo poderes é o twist perfeito. É como que se o realizador nos estivesse a dizer: “Pensas que estás a ver um filme intelectual? Então estás no filme errado porque ele tem mesmo poderes! Simplesmente não consegue ser um bom ator, ou melhor conseguiu, sofrendo.”

Uma banda sonora arrojada, arriscada, maravilhosa.

O Iñárrito nunca mais será o mesmo a seguir a Birdman. E o cinema também não.

“Popularity is the slutty little cosin of prestige”

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  1. GRAND BUDAPEST HOTEL

Grand budapeste hotel foi o meu filme preferido desde que estreou em Portugal no inicio de 2014 e até aparecer o Interstellar e o Birdman. É o meu 2º filme preferido do Wes Anderson (logo atrás do Fantastic Mr. Fox).

O Wes Anderson tem o mesmo problema do Tim Burton. Visualmente é dos realizadores mais originais e fabulosos do cinema atual, mas os filmes ficam sempre aquém por alguma razão, normalmente pelo guião. Já por uma vez o Wes Anderson tinha conseguido uma obra perfeita. Visualmente e a nível de conteúdo com o Fantastic Mr. Fox.

Para já porque o cast é infindável e ele consegue dar relevância a todas as personagens que aparecem. Sem exceção. São todas interessantes por pouco tempo que apareçam.

Visualmente, é escusado falar de WA. Sempre foi a sua força indiscutível e neste filme está no seu melhor.

O casting dispensa apresentações. Uma grande história. Um grande filme.

Whiplash-Scream

  1. WHIPLASH

Uma das teorias mais importantes do storytelling é a criação do universo da história. Isto porque uma das características que mais envolve  a audiência é a credibilidade. E uma boa construção de um universo da história dá credibilidade à mesma. Mas é das coisas mais difíceis de conseguir porque implica muitíssima investigação principalmente se quem escreve não for especialista. Implica conhecer tudo ou quase tudo sobre o que se está a contar. Se forem galáxias, planetas e Black Holes, se for uma vila piscatória, se for uma sociedade atacada por um vírus mortal. Quanto melhor o conhecimento do guionista/realizador sobre o tema, melhor e mais credível se torna a história.

Este argumento é dos melhores exemplos. Isso sente-se e vê-se, e só por isso, é já um filme que se destaca.

Depois tem 2 atores com 2 interpretações que provavelmente ficarão como das melhores das suas carreiras.

A banda sonora e a edição genial fazem a história correr de uma forma ainda mais fluente.

O storytelling é construído de uma forma brilhante, aumentando a tensão gradualmente desde o inicio até ao ultimo minuto, sendo que o ultimo minuto estica a corda da tensão ao limite, como se pretende nas grandes histórias.

A mensagem do filme, na minha opinião é dos pontos mais interessantes. Uma mensagem também presente no Birdman. O sofrimento e a obsessão diretamente associadas à evolução para um patamar artístico de excelência.

Quem quer ser muito bom naquilo que faz, não basta gostar e trabalhar. Tem que sofrer. Sem sofrimento, a excelência não se alcança.

ida

  1. IDA

Um dos filmes mais pró católicos dos últimos tempos. Se algum filme defende a espiritualidade como uma forma de vida feliz, completa e plena, o Ida é um deles certamente.

E fá-lo através de uma grande atriz e personagem, com uma empatia poderosa e imediata com a audiência, ficamos automaticamente do lado dela.

Conhecemos a Ida que viveu até à vida adulta num convento, aparentemente saudável nos valores e pessoas que integra. Mas que vai ter de sair contra a sua vontade porque a sua tia a quer conhecer, passados todos estes anos.

A agressividade do seu primeiro contacto com o mundo exterior é veiculado pela própria tia no primeiro dialogo que ambas têm.

É tão agressivo e coloca em causa tudo o que ela é, tudo o que ela acredita com apenas uma frase.

A forma como ela reage a essa agressão é tão generosa, honesta e humilde que reforçamos a empatia com esta personagem para o filme todo. Ganha-nos automaticamente.

Experimenta o nosso mundo, a violência, a angustia, o sofrimento, o desespero, o amor, o desejo, a felicidade. E depois disto tudo decide. Decide com um conjunto muito simples de perguntas. E nós, pelo menos eu, percebo-a.

Um ultimo comentário para a fotografia. É só e apenas a melhor fotografia do ano. Não há um único plano que não seja maravilhoso.

locke

  1. LOCKE

Guia para uma liderança implacável: check / Guia para uma vida baseada na verdade: check / Guia para honestidade e frontalidade: check / Guia para assumir responsabilidades e dar a cara pelos erros: check / Guia para tê-los no sitio: check / guia para o que todos devíamos ser: check.

O filme passa-se todo, integralmente, dentro de um carro com uma única pessoa. Mas os conflitos por minuto são mais que muitos filmes carregados de ação. São daqueles conflitos difíceis, credíveis, como se pede numa boa história e a tensão lá vai crescendo exponencialmente ao longo do filme com os conflitos cada  vez mais difíceis.

E nós vamos admirando a personagem exemplar que o Tom Hardy representa. Não há jornada de herói porque a personagem é a mesma no final que era no inicio.

Um ser humano exemplar como todos devíamos ser. E por isso é que gera tantos conflitos.

Mais uma estrela brilhante de 2014 que não brilhou em nenhum festival.

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  1. GUARDIANS OF THE GALAXY

Comparar este blockbuster com outros históricos e intemporais como o Star Wars, Indiana Jones e Regresso ao Futuro parece um pouco premeditado. Mas que dá muita vontade, dá. E eu vou mesmo comparar por variadas razões:

. Tem uma história exemplar e um universo muito rico.

. Tem personagens inesquecíveis.

. O personagem principal é um triunfo absoluto da combinação de uma personagem muito bem criada e de um ator perfeito para a representar.

. É invulgarmente divertido.

. As cenas de ação estão muito boas, servem a história e não são cansativas.

. E por ultimo e o mais importante, é um filme verdadeiramente familiar no sentido que consegue chegar a todas as idades, colocando inteligentemente ingredientes que interessam a todos.

É dos melhores e mais inteligentes blockbusters dos últimos anos, o melhor filme da Marvel, e uma viagem muito divertida. Venham as sequelas. Esperamos um “Empire Strikes Back”

Ainda bem que foi um sucesso de bilheteira planetário senão não conseguiam segurar o Chris Pratt para um segundo filme. Os assédios já vão desde o Jurassic Park, Indiana Jones e Han Solo. Nasceu um novo herói.

nightcrawler

  1. NIGHTCRAWLER

“E se eu te disser que simplesmente não gosto de pessoas”

O personagem do Jake Gyllenhaal faz lembrar as grandes personagens assombradas da história do cinema como o Taxi Driver, o Nicolas Cage em Bringing out the dead, etc.

O que é mais perturbante nesta personagem é que na realidade não há nada concreto que o assombre ou perturbe. Simplesmente não há ética ou moral. Mas há uma procura quase matemática e calculista de sentido da vida e uma vontade cega de o atingir quando descoberto. Ao contrário do estereótipo de personagens assombradas, solitárias, urbanas, este personagem tem uma enorme capacidade de comunicação, skills sociais avançados, inteligência, organização e foco.

E a solidão, muito presente na sua vida, nunca é motivo de tristeza ou depressão porque ele simplesmente “não gosta de pessoas”

Faz lembrar o Estrangeiro do Camus.

De uma forma subtil e não direta, toca em pontos sensíveis dos media nos dias de hoje. A vontade cega de atingir audiências que permite que surjam personagens destas pode efetivamente tornar-se uma realidade, se não o é já atualmente. A Rene Russo encarna notavelmente esta podridão, ganância e impotência dos media perante uma sede insaciável de audiências.

Com uma interpretação gigante do Jake Gyllenhaal, um excelente script, e uma realização notável, é um dos filmes do ano.

babadook

  1. BABADOOK

Como é que a loucura chega à nossa vida? Como é que o mal se instala? Uma pessoa que foi boa pode mudar? E será que os outros conseguem ver este mal? E será que os outros o conseguem curar?

Um dos melhores ensaios sobre a loucura em formato filme de terror desde o Shinning. Com as devidas distâncias e respectivas vénias a essa obra maior do kubrick.
Essie Davis e Noah Wiseman são das melhores representações de 2014. Se o desgosto, a loucura e a maldade têm um rosto, é a deles neste filme.

Os sustos e o “monstro” também são muito bem conseguidos especialmente através do som. A voz do Babadook assusta mais do que todos os filmes de terror de 2014 juntos.

Mas é a interpretação do que é este monstro na nossa vida que torna este filme superior, assim como as fabulosas interpretações dos seus 2 atores principais.

E a questão ficará sempre no ar. Será que podemos guardar e alimentar os nossos desgostos e medos para o resto da vida? E seguir em frente, com eles bem presentes. Será melhor assim do que tentar matá-los?
Babadook é tudo o que se pode pedir de um filme de terror que é ser muito mais do que um filme de terror.

 

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10. MAPS TO THE STARS

Map to the stars é uma hate letter a hollywood. Embora o argumentista (acompanhado pelo Cronnenberg) diga que analisar este script e filme como uma sátira a Hollywood dá-lhe vómitos e mostra uma visão limitada sobre o filme, eu acho que não há como fugir dessa interpretação. E ainda bem.

Como Scott Fitzgerald dizia, as pessoas muito ricas são diferentes. E nós, os que não são muito ricos gostamos de imaginar, gozar, criticar a vida deles. A natureza humana é assim.

Independentemente da curiosidade natural que as vidas diferentes causam, é um grandioso freak show e o melhor e mais “Cronnenbergiano” filme do mestre na ultima década. O que é muito bom.

Para além disso tem um desfile de atores brilhantes no topo da sua forma.

 

11. Blue ruin

12. Wind rises

13. Dawn of the planet of the apes

14. Under the skin

15. The rocket

 

Fora do Top 15:

Citizen Four

Leviathan

Winter sleep

Raid 2

Enemy

Foxcatcher

Two days one night

Boyhood

Ninphomaniac

Miss violence

Tom at the farm

2 faces of january

Fruitvale station

Cavalo dinheiro

Gone girl

Frank

 

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Melhores Filmes de 2011

 

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1- TREE OF LIFE

Devido ao meu amor pela filosofia e pelo pensamento livre torna-se automaticamente parcial a minha posição sobre este filme. A árvore da vida não só é o melhor filme de 2011 como é dos mais importantes filmes dos últimos dez anos.

Por 2 razões. Porque transforma o cinema como o conhecemos noutra coisa completamente diferente. Numa experiência, numa visita, numa exposição de arte e música, numa introspeção. E porque é um documento, um registo, uma “carta” da existência da vida no planeta terra. Dá um foco especial à espécie humana, mas coloca-a no seu lugar e mostra-lhe que não é ao seu redor que tudo gira. Dá uma dimensão espiritual e dá dicas para a nossa evolução. Se somos a espécie mais evoluída, então temos o dever de equilibrar a vida neste planeta.

A frase que abre o filme explica a nossa existência, dá pistas para o futuro e enche-nos de responsabilidade. “There is 2 ways trought life: the way of nature and the way of grace”. A natureza é tudo o que nos rodeia. Temos tendência em pensar na natureza como a vida selvagem. A natureza é tanto a vida vegetal, como é a vida animal, todas as espécies deste planeta (incluindo a humana), as cidades, as estradas, os prédios, a tecnologia, enfim natureza é o que é expectável. A graça é o que faz a diferença. Só a graça pode fazer a diferença. Se for pela natureza nós não teremos futuro como espécie humana, teremos um comportamento de espécie vencedora que esgotou todos os recursos à sua volta, eliminando-se a si própria por essa razão. Se calhar é mesmo assim, por ciclos até que uma geração de espécie evoluída quebre o ciclo. Mas o ciclo não pode ser quebrado seguindo as regras da natureza. Terá de ser algo diferente. Só o amor pode salvar o mundo.

É um excelente filme para ver várias vezes durante a nossa vida, para ouvir as mensagens e para recordarmos qual é o caminho que deveremos seguir. Fenomenal, transcendental, uma experiência espiritual e existencial. O Malick é o novo Kubrick. Um filme único na história do cinema. Emociona-nos durante o filme (a minha irmã chorou compulsivamente durante o filme), e depois de acabar.

A religião e a espiritualidade é e será sempre importante. Embora eu seja pessoalmente duvidoso, agnóstico, acho que é bom nos interessarmos e acho bom a espiritualidade, e principalmente acho bom o amor. Só o amor pode salvar o mundo disse uma pessoa um dia. E como ele tem razão. Este filme vai direto ao subconsciente.

Faz-nos ter noção do que é importante e faz-nos chorar por nós todos. É uma autentica obra de arte. O cinema deixou de ser 7ª arte com o Tree of Life. subiu um escalão. “Unless you love, your life will flash by… ”

O nosso próximo passo na evolução só pode ser a Graça. A tecnologia, o desenvolvimento, o crescimento, o capitalismo já eram. Bem vindos a uma nova era. E o Tree of Life esta ai para nos mostrar, recordar e principalmente Reenquadrar.

Só o amor pode salvar o mundo.

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2- DRIVE

O melhor filme dos anos 80 realizado em 2011. É inacreditavelmente 80’s no look and feel, na grandiosa banda sonora, na fotografia exemplar, na realização imaculada. Mas no meio deste ambiente surgem elementos modernos como um i-phone e pensa-se que é uma enorme “gaffe”. E começamos a aperceber-nos que não, e que o filme passa-se mesmo nos dias de hoje e as fabulosas músicas 80’s da banda sonora são efetivamente músicas feitas agora.

O Ryan Gosling cria a personagem mais cool dos últimos anos e possivelmente uma das personagens mais cool da história do cinema (ombreando com Marlons Brando’s e James Dean’s da vida). É um filme ultra-violento mas esta violência não é gratuita, aparece onde deve aparecer e é ultra realista sem esconder nada, mas coerente com a pureza do próprio filme.

Quem gosta de jogos de vídeo, conhece e já jogou um dos grandes monstros da industria dos vídeo jogos que neste momento já tem melhores performances que muitos filmes de Hollywood. Refiro-me à série Grand Theft Auto. O drive é a melhor adaptação do GTA para o cinema que alguma vez se fará. Mesmo sem querer, criaram a melhor adaptação de um vídeo jogo de sempre.

O Ryan Gosling, ator e mentor do projeto, foi ao Conan e explicou que quando estava a procurar o realizador para o filme falou com vários numa esplanada em LA, e que quando chegou à vez do Nicolas ficaram calados o tempo todo e quando ele tentava que o Nicolas lhe dissesse o que via no filme, o realizador simplesmente ficava calado. Sem esperança, o Ryan desistiu e como era a ultima entrevista perguntou ao realizador se queria uma boleia. Quando iam no carro começa dar o “I can fight this feeling” (grande clássico dos 80’s) e o Nicolas começa a chorar e diz: “o filme é isto, o filme é isto, tu a conduzires em LA, esta música, é isto, é isto”. O Ryan contratou-o imediatamente.

O Drive é um imediato filme de culto, absolutamente original. O segundo melhor filme de 2011.

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3- DESCENDENTES

Descendents e Tree of Life têm muitos pontos em comum. Ambos se preocupam com a evolução humana e ambos nos tocam profundamente ao passar essa mensagem. George Clooney é um homem normal com os seus problemas do dia a dia. Mas esses problemas são o que fazem a nossa vida. 90% da população da terra são pessoas normais. Geralmente, a vida normal com os seus problemas normais não tem interesse no cinema.

É aí que o Alexander Payne e o Clooney tem o seu toque de génio. Isto porque os nossos problemas “normais” estão carregados de emoções e sentimentos. Ao conseguir capta-los pode-se fazer um filme sobre o everyday life tão poderoso como este.

As personagens são praticamente todas inesquecíveis e quebram constantemente os padrões standard de comportamento que se espera de um tradicional filme e de uma forma tradicional de mostrar este tipo de personagens. A personagem do Clooney é inspiradora no sentido que nos mostra e ensina o melhor que um ser humano pode ser, mesmo sem ter a certeza de estar a fazer o que está correto e constantemente fugindo da sua zona de conforto. Quando se espera que ele quebre e descarrile, ele avança e segue o caminho sempre mais acertado.

Quando se espera que a filha teen seja um obstáculo dramático ao pai, ela torna-se uma aliada poderosa e uma das melhores performances do filme. Quando se espera que o amigo da filha seja um total atrasado mental apenas existindo para os gags cómicos, ele torna-se uma personagem central e fundamental para união da família durante esta crise aguda onde se encontram. Até a ultima decisão da personagem de Clooney é inesquecível e acertada. Até essa decisão tem a ver com o Tree of Life. Se queremos ser a espécie mais evoluída, temos de seguir o caminho da graça e não o caminho da natureza.

Não podemos ter o comportamento de vírus e temos de saber equilibrar a vida neste planeta. Sem qualquer sombra de dúvida o melhor filme de Payne e um dos melhores filmes do ano.

The Girl with the Dragon Tattoo

4- GIRL WITH THE DRAGON TATOO

“Fuck you, you fucking fuck” é a frase na t-shirt da Lisbeth quando o Blomkvist a vê pela primeira vez.

Diz-se que o Fincher fez questão de colocar a Ronney Mara com esta t-shirt como resposta aos vários fãs do filme sueco que se prontificaram a atacá-lo desde o momento em que ele oficializou que ia fazer o remake. O Fincher é assim. E é por isso que é cada vez mais um dos meus realizadores preferidos.

Este filme tem muitos pontos de ligação com a sua filmografia. A investigação obsessiva e incansável, que já vem do Seven e explorada até ao pormenor no Zodíaco (o melhor filme sobre obsessão alguma vez feito?). A nova era tecnológica, o seu poder, a sua grandiosa ameaça à nossa privacidade, já presente no Social Network. A Lisbeth, assim como o Zuckerberg são produtos desta nova era, sem attachments emocionais, altamente racionais e frios são o espelho de uma nova era que o Fincher tão bem tenta explicar através destas personagens fortíssimas e sempre tão bem representadas. A Lisbeth e o Zuckerberg são a face da mesma moeda e o toque genial de Fincher vai ao ponto de ela ter sido a namorada do Zuckerberg no Social Network.

Esta abordagem meio humana, meio maquina remete-nos para o universo Cyborg e a Lisbeth remete-nos para este universo (muito mais que a congénere sueca) com uma homenagem obvia  ao rei dos filmes sobre Cyborgs. Quando a Lisbeth está a castigar o seu tutor, pinta os olhos de negro, remetendo diretamente para o Cyborg da Daryl Hanna no Blade Runner.

Eu gostei muito do filme sueco (especialmente do primeiro). Mas todos os aspetos deste filme são melhores que o filme original. A fotografia, a realização, a art direction (fabulosa), a banda sonora (estrondosa), a atriz (mais frágil  e vulnerável o que a torna ainda mais interessante), o ator (o Daniel Craig é muito melhor que o seu equivalente sueco), a empatia entre os dois, o espetacular Christopher Plummer,  ou seja , tudo o que eu adorei no filme sueco foi exponenciado neste filme tornando-o quase automaticamente um dos meus filmes preferidos do ano.

O genérico de abertura é inesquecível. Dá-nos logo um murro no estômago, com imagens a lembrar um genérico de um James Bond muito negro o que não deixa de revelar ao mesmo tempo um sentido de humor muito subtil do Fincher.

As (falsas) aparências são um tema forte, bem explorado e central ao longo do filme. Tudo o que parece não é, e uma família riquíssima da sociedade sueca não passa de “thieves, misers, bullies, the most detestable collection of people that you will ever meet… My family”, como tão inesquecivelmente diz o Christopher Plummer ao Daniel Craig quando o esta a contratar para investigar a morte da sua sobrinha. O filme passa-se num registo e formato clássico de investigação de ambiente fechado, confinado a um espaço físico limitado, num típico who’s who que se vai desvendando ao longo do filme à medida que a excelente equipa Lisbeth / Blonkvist vão desbloqueando as pistas que até então ninguém tinha conseguido desvendar.

A relação dos dois funciona na perfeição, sentindo-se de imediato a química e o respeito intelectual entre ambos. A anti-sociabilidade dela é empática com o espetador pois num mundo muitas vezes de falsas aparências sabe bem ver a forma como ela lida com os “humanos” com total falta de obrigação social de simpatia ou respeito e mostrando apenas essa faceta quando realmente reconhece valor em alguém.

O David Fincher também já nos habituou a fotografias fenomenais e a ambientes únicos. Dragon Tatoo mantém esta fasquia bem alta com cenas e ambientes inesquecíveis.

Jean-Dujardin-in-the-Artist-by-michel-hazanavicius

5- ARTISTA

Vida de artista… é dura, esgotante, hilariante, depressiva, concorrencial, brilhante, sedutora, viciante, apaixonante, letal, suicida, amorosa… e… sem som… é assim a vida de artista.

Há coisas muito boas no artista, e uma delas é esta. É mostrar a essência da vida de um artista, que pode ser um actor em Hollywood, como pode ser um escritor, pintor, escultor, basicamente todas as pessoas que vivem do seu talento e dependem dele e do publico para viver (ou mesmo que não dependem para viver, dependem sempre do publico para receber reconhecimento e para conseguir tocar as pessoas).

Por mais que um artista negue, o objetivo ultimo de qualquer artista é de partilhar a sua visão do mundo, o seu talento com o que os rodeiam, com a sua sociedade e no limite o mundo. Quanto maior a abrangência da partilha do talento de um artista mais realizado ele se sente. E por isso, a vida de um artista esta sempre intimamente ligada com este sentimento e como o talento geralmente não aparece sempre da mesma forma durante a vida, e principalmente não se consegue sempre adaptar as mudanças, é normal ver altos e baixos na vida de um artista.

E se o melhor para um artista é ter reconhecimento, então o pior da sua vida é não o ter. Estes altos e baixos são interpretados brilhantemente pelo Jean Dujardin, alias esse é o outro ponto fortíssimo deste filme. O casting. O Jean Dujardin tem uma performance brilhante, e já é famosa a historia dele com o Jim Carrey numa famosa pizzaria em LA durante as filmagens do artista. Sem se conhecerem um ao outro, o Jean Dujardin senta-se na mesa do Jim e começam a fazer um concurso de caretas, e diz a lenda que o Dujardin saiu vencedor.

Através das expressões faciais e corporais, dá-nos uma das melhores performances do ano, emociona-nos, faz nos rir, faz nos pensar, cria um personagem fortíssimo e basicamente aguenta com o filme todo as suas costas. Ela não fica atrás e juntos são sem dúvida o par mais forte do ano. O outro trunfo do artista é mostrar que contar uma história não tem obrigatoriamente a ver com diálogos elaborados ou efeitos especiais.

É uma lição sobre como contar uma boa história. Um filme mudo e a preto e branco no século XXI? How much out of the box can you be? A banda sonora é espantosa remete-nos automaticamente para a grande tradição cinematográfica americana, para os grandes clássicos fazendo-nos relembrar o grande papel do cinema ao longo da nossa vida. É, assim como o Hugo, uma homenagem ao cinema.

Leva-nos para os primórdios do cinema, para os clássicos de sempre, para o film noir (quem não se lembra do Sunset Boulevard ao ver este filme) mas ao mesmo tempo liga-nos ao nosso tempo quase como uma viagem no tempo, com um casting brilhante, com uma realização sem falhas e com pequenos apontamentos que traduzem um domínio do melhor que se faz no cinema atualmente (a cena do sonho onde ele se apercebe que tudo tem som menos ele é genial).

É um notável exercício de como lidar com a mudança que é a única constante da vida, principalmente no cinema. E é um filme singular e especial. Nomeado para 10 Óscares e mais 77 nomeações para outros prémios de cinema e 53 prémios ganhos é caso muito sério de sucesso em 2011.

HUGO

6- HUGO

Magia. Hugo é magia. Tudo no Hugo é magia, o ambiente é mágico, a história é magica, a história é cinema e o cinema é magia. A história do cinema nasceu de mágicos… Literalmente. E o Scorcese fez literalmente magia com este filme.

É a homenagem ao cinema por excelência e se vamos querer uma referencia no futuro que preste esta homenagem, o Hugo vai sê-la. Esta homenagem só poderia vir de 3 pessoas neste momento em Hollywood, verdadeiros amantes do cinema em todas as suas vertentes e verdadeiros conhecedores da arte, e autenticas enciclopédias ambulantes de cinema. Estas 3 pessoas são o Spielberg, o Scorcese e o Tarantino.

Esta homenagem sincera surgiu pela mão do Scorcese e ainda bem porque é um filme mágico. E o que mais poderia ser para prestar esta homenagem? A fotografia, os efeitos especiais/3d e a art direction são 3 dos principais elementos do filme que traduzem este ambiente de absoluta magia que se sente especialmente no principal habitat do filme que é a estacão de comboios parisiense. A perspetiva de uma criança abandonada, a viver numa estacão de comboios, com constante receio de ser apanhada pela policia consegue recriar melhor um ambiente Oliver Twist que o próprio filme do Polansky.

Esta criança tem muito de autobiográfico e representa a infância isolada do Scorcese e a paixão pelo cinema que nasceu com ele em tenra idade onde se refugiava nas salas de cinema, fascinado com as inúmeras histórias de outros mundos, outras pessoas, outras realidades que o transportavam para outros contextos e o ajudavam a viver. O Hugo, apesar do seu abandono, da fome e da tristeza, refugia-se nos seus vários esconderijos da estação de comboios que lhe permitem espiar a vida das pessoas que lá trabalham, que têm as suas vidas, os seus amores, os seus desgostos, as suas tristezas, as suas histórias. E o Hugo conhece-as todas sempre com uma perspetiva de voyeur, mas ajuda-o a viver. Tal como o Scorcese, as histórias são a razão da vida do Hugo.

E é através destas histórias e destas pessoas que o Hugo descobre o seu caminho e o seu destino. Tal como o Scorcese. E o destino deles é e foi… Mágico. A forma como ele filma estas histórias é simplesmente maravilhoso, relembrando muitas vezes os filmes mudos. O ator que representa o Hugo tem um papel incrível e apesar da idade merecia estar nomeado. É ele que comanda o filme, com uma sinceridade e emoção surpreendentes. É por ele que tudo faz sentido, é ele que consegue transmitir a tristeza do abandono, é ele que consegue transmitir o deslumbramento da magia, a perseverança de perseguires o teu destino, é ele que consegue transmitir a dor do crescimento, o abandono da ingenuidade, a força necessária para conseguires sobreviver. Por vezes faz lembrar o grande e definitivo filme sobre o fim da idade da inocência: A Viagem de Chichiro.

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7- HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS PART 2

É um fecho de uma saga ao nível dos melhores, ao nível dos 2 melhor fechos de sagas jamais feitos. O Regresso do Rei e o Toy Story 3 (nem o Padrinho, nem o Star Wars, nem o Alien conseguiram fechar tão bem como estes 2). Harry Potter and the Deadly Hallows fecha na perfeição um verdadeiro marco na história do cinema, só não se eleva tanto como os 2 exemplos dados anteriormente porque a saga em si não é tão qualitativamente boa. O Harry Potter tem 2 grandes filmes na saga (o terceiro e o ultimo) e fora isso cumpre e entrega filmes competentes mas sem estar ao nível dos melhores.

De qualquer forma tem o grande feito de manter o casting imaculado ao longo dos anos e de se manter focado na história e nos seus personagens. O conceito central do Harry Potter (És sempre mais fraco sozinho) foi explorado ao longo dos oito filmes atingindo o seu expoente máximo no ultimo filme. Em equipa, em grupo, com os teus amigos, com a tua família, com os teus colegas, com os “teus” és sempre mais forte.

Ao longo dos vários filmes, o HP embora predestinado nunca seria ninguém e nunca conseguiria atingir o que atingiu se não fossem os amigos e colegas. Neste ultimo filme isso é mais evidente que nunca e tudo acaba bem pela contribuição de todos. O HP é só mais um a contribuir para ao sucesso da batalha. E que batalha. A batalha final é simplesmente inesquecível. Soberbamente bem filmada com planos perfeitos e com efeitos especiais milimetricamente utilizados, nunca abusando dos mesmos, tornando o CGI mais real que nunca.

É sem qualquer duvida o melhor filme de ação e aventura do ano. Digno do melhor Spielberg. Um carrossel de ação, sempre com a aventura e a história a comandar os destinos do filme. Quase que se pode ver isoladamente, sem ter visto os filmes anteriores e é um verdadeiro prazer para qualquer fã de cinema e mais especificamente de filmes de aventuras. O HP fecha com chave de ouro, com o melhor filme da saga, e por isso mesmo torna-a mais forte e um marco incontornável na história da sétima arte.

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8- LA PIEL QUE HABITO

Este foi o ano dos veteranos. Malick, Scorcese, Allen e Almodôvar no top 10.

Depois de tantos anos a fazer filmes, com altos e baixos na inspiração, é obra que continuem a conseguir ter filmes com esta qualidade. Mas o facto é que têm, e estão de parabéns por isso. O Almodôvar é como o Allen. Qualquer novo filme é um acontecimento e mesmo que seja de inspiração media é sempre um acontecimento e é sempre bom ir vê-los. Neste caso, depois de algumas inspirações medias, o Almodôvar volta à grande forma com um dos seus filmes mais diferentes, mas ao mesmo tempo com tudo a ver com ele.

Para começar, é a melhor história do ano. Uma daquelas histórias que valem por si, uma daquelas histórias que seria interessante em qualquer formato que fosse contada. Imaginada de raiz pelo genial realizador, com cenas e personagens inacreditáveis, com varias cenas surreais durante o filme, com twists constantes e com um final surpreendente é uma história com principio meio e fim que nos deixa interessados desde o inicio, e que acaba em apoteose.

Como os grandes livros, desde a primeira cena até à ultima, o Almodôvar vai deixando sempre pequenas pistas e vai sempre desvendando um pouco da história, de uma forma que ficamos sempre com vontade de saber e descobrir mais: Uma perfeita gestão da exposição.

Junta elementos de terror, drama, surrealismo, violência e aborda a questão do transexualismo já bem patente no histórico de filmes dele e que deixa uma marca bem clara que é um filme do Almodôvar. A nível técnico está cada vez melhor, com uma realização imaculada, com uma fotografia notável e com uma edição brilhante responsável por este efeito “cenoura” que nos deixa sempre mais e mais interessados ao longo do filme. Os atores estão muito bem dirigidos com performances brilhantes (grande destaque para António Banderas que o Almodôvar fez questão de lembrar com este filme que é um excelente ator). Com muita pena minha não está sequer nomeado para filme estrangeiro, mas os Óscares valem o que valem. É um dos melhores Almodôvar dos últimos anos, e uma excelente história, muito bem contada/filmada para quem o cinema é antes de tudo o resto um grande canal de storytelling.

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9- MIDNIGHT IN PARIS

O melhor Woody desde Match Point. Whatever works também foi muito bom mas nem chegou ao meu top 10 do seu ano. Midnight não é tão bom como um match point (mas o match point é talvez o quarto melhor filme de Allen e com 47 filmes, é difícil de chegar ao cimo da tabela).

O Owen Wilson é perfeito para o típico personagem neurótico Alleniano o que nos faz imediatamente sentir em casa. O humor está ao melhor nível de Woody Allen. A sensação de inadaptação de Gil naquele universo onde vive esta muito bem conseguida e cheia de piada. Mas até aqui estamos no mais do mesmo (que com o Woody Allen já é ótimo!!), mas este filme destacou-se porque o melhor ainda esta para vir.

Quem iria lembrar-se que numa esquina de Paris, à meia noite, aparece um misterioso carro que leva o nosso personagem para uma paris dos anos 20. Onde ele encontra os seus ídolos e incontornáveis personagens da arte e cultura do século XX. Como escritor e artista que é, fica viciado nestas experiências e começa a desaparecer todos os dias para apanhar a misteriosa limusina da meia noite e para conviver com todas estas personagens. O Woody explora estas personagens históricas fazendo-as interagir com o nosso personagem. Esta vida e personalidade dada a todas estas personagens (F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Salvador Dali, etc) está muito bem conseguida com imensa piada e ao mesmo tempo com muito respeito pelas mesmas, e até eventualmente com alguma assertividade histórica.

Essa intimidade com que vivemos com todos eles faz enorme diferença pois assim como o Gil, ficamos com a sensação de estar a conviver com os grandes vultos da arte do inicio do século XX. Para além da excelente ideia e de como é explorada, com um excelente argumento e realização, o filme tem uma mensagem importante.

É óbvia demais, ficaria mais interessante se fosse mais subtil, mas não deixa de ser a grande mensagem do filme e serve muito bem para fechar a história com chave de ouro. A determinada altura o Gil começa a reparar que as personagens com quem tão viciadamente convive, os seus ídolos, se sentem também inadaptados e que falam dos outros tempos como se fossem melhores do que os que vivem atualmente. Ele entretanto apaixona-se pela Adriana (Marion Cotillard), e viajam ainda mais para o passado. E quando chegam ao final do século XIX, conhecem os notáveis Lautrec e Matisse, e também eles se queixam dos tempos que vivem e que o passado era muito melhor.

A mensagem é óbvia, mas fecha bem o filme e não deixa de ser uma mensagem útil principalmente para quem não reage bem a mudanças. No caso dos artistas surge muito esta sensação, mas sabemos como  facto que isso não é verdade e que todas as épocas tiveram filmes, livros, músicas, pinturas brilhantes. O mesmo é valido para quem diz que a evolução tecnológica não faz sentido e que o passado é que era. Quem vier mais à frente vai dizer que o facebook é que era e que a nova moda já não faz sentido. A mudança é a única constante da vida e quem acha que tudo vai ficar na mesma vai viver frustrado e a lamentar o passado. O grande Woody conta uma história cheia de humor, altamente original e com esta mensagem fabulosa. Mais um grande filme de 2011 que é uma carta de amor à cidade da luzes.

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10- JOSE E PILAR

José e Pilar, consegue uma proeza provavelmente poucas vezes conseguida. Consegue acompanhar de inacreditavelmente perto, a vida privada de um dos maiores intelectuais de sempre e a relação intima e verdadeira de 2 pessoas feitas uma para a outra, de um amor maior do que a vida, de um amor que dá sentido à vida, um amor incondicional e de infinito respeito mútuo.

Mas o realizador consegue uma proximidade tal com o génio e com o casal, que consegue que a câmara esteja sempre lá. Quando eles falam, quando eles vêm televisão, quando eles se preparam para sair, quando eles vão passear, enfim, ao longo de um período muito alargado de tempo, eles vivem os 3, e em inacreditável sintonia e intimidade. E o mais surpreendente de tudo é que o faz na fase final da vida dele, o que torna ainda mais intensa esta intimidade a 3. Se não fosse esta cumplicidade, nunca se conseguiria alcançar tão profundamente a pessoa que foi José Saramago e uma das maiores histórias de amor de todos os tempos.

Com este filme e especialmente para os portugueses, fica-se com a noção de como temos ainda que crescer como sociedade, como somos tão fechados ainda ao mundo e quão negativamente conservadores continuamos a ser. É uma chamada de atenção para o nosso povo que não aceita pessoas polémicas, com pelo na venta, que desafiam constantemente e que criticam verdadeiramente as instituições e o modo de vida de uma sociedade.

É obviamente um filme sobre a morte, e sobre a tranquilidade com que um ateu verdadeiramente assumido a enfrenta. É impressionante a forma com que Saramago aceita a morte reconhecendo-a como “a diferença entre viver e morrer é a diferença entre estar e não estar” e é assim, nem mais nem menos, que Saramago a vê. Mas para ele é natural, é assim a vida, não há nada a fazer, e não há que ter medo. Há que se despachar para aproveitar o pouco tempo que ainda tem para fazer o máximo. O homem com a enorme inteligência que tem não poderia deixar de ter imenso sentido de humor, apesar do seu feitio altamente melancólico e até agressivo, não deixa de reparar nas coisas mais simples da vida, aprecia profundamente as pessoas honestas, boas, limpas de preconceitos e com cabeças esclarecidas.

Perante uma plateia, Saramago diz o seguinte antes de morrer (ou melhor antes da primeira forte recaída que para ele e todos se pensava que seria a morte):

“Se toda a gente boa… se toda a gente… amante da beleza, se toda a gente amante do justo e do honesto… pudesse… …. reunir esforços e opor-se contra a barbárie do mundo, o mundo seria capaz de dignificar o homem… o ser humano que somos.

O mundo… talvez… pudesse ter um futuro… muito obrigado a todos”

Só por isto, este filme já valeria a pena, mas existem tantas frases e tantos pensamentos que ver este filme várias vezes irá sempre ser uma fonte de aprendizagem:

“Pilar… Encontramo-nos noutro sitio…”

“A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar”

“Todos os tempos têm coisas boas, todos os tempos as tiveram péssimas. Mas como comunidade a espécie humana é um desastre. É um desastre. Então é muito difícil dizer que todo o tempo passado foi melhor”

Um filme de exceção de 2011 em Portugal e no mundo.

10-20:

10 – Idos de março

11 – Senna

12 – We need to talk about kevin

13 – Pequenas mentiras entre amigos

14 – War Horse

15 – Dangerous method

16 – Contagio

17- The way back

18 – Carnage

19 – O miúdo da bicicleta

20 – Young adult
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Melhores Filmes de 2010

 

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1 – SOCIAL NETWORK

Uma história difícil, aparentemente, de levar para o grande ecrã. Pouco “sumo” para criar uma longa-metragem. Os excelentes diálogos, a forma como a história é contada e as mensagens que são passadas, conseguem criar uma obra excepcional que prende o espectador do principio ao fim, e mais importante que isso, faz pensar e refletir sobre os tempos que vivemos.

Todas as personagens foram pensadas ao pormenor. Até os dois empresários que inicialmente investem no facebook foram bem escolhidos. Um branco e um negro, com um ar sharp, inteligente. Com ar de empresários que fazem a diferença neste novo mundo. O cuidado de incluir um indiano no grupo “rico” dos gémeos. Um monumental ator para personagem principal, uma excelente aposta no Justin Timberlake, e podíamos continuar a apontar excelentes escolhas para todas as personagens que aparecem no filme.

O Jesse Eisenberg é também uma razão essencial para ver o filme e um dos principais responsáveis para o sucesso do mesmo. Encarna o personagem ao nível dos melhores. Mereceu a nomeação. A edição, a banda sonora e a fotografia (que com o Fincher andam sempre de mãos dadas) são do melhor que ele nos tem habituado, que é suficiente para explicar o nível de qualidade deste filme. A banda sonora foi elaborada pelo homem dos NIN e é fabulosa.

As mensagens são o mais importante, embora sejam subtis ao longo de todo o filme. Poder e Solidão, já se falava do mesmo no Citizen Cane. Genialidade e Talento, já se falava do mesmo no Amadeus. Amizade e Traição, já se fala desde as tragédias gregas. Uma nova era e uma nova forma de comunicar, muito importante para quem não se está a aperceber disso (tudo é imediato nos dias de hoje e a informação cada vez corre mais rápido). Como em todos (ou quase todos os filmes do Fincher), a Obsessão e a importância da mesma na nossa vida (ele próprio é obcecado pelo seu trabalho).

Por fim, e mais importante, o poder da juventude. Agora mais do que nunca, os jovens têm poder real. É uma novidade e realidade dos novos tempos, ainda descurada por muitas pessoas. Das mais poderosas empresas da atualidade pertencem a jovens. Por todas estas razões considero o Social Network a melhor realização e o melhor filme do ano… E tem a melhor música de trailer da história do cinema.

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2 – INCEPTION

Tenho um (bom e grave) problema com o Christopher Nolan. É um dos meus realizadores preferidos desde o seu primeiro filme (excecional Memento), como deverá ser um dos realizadores preferidos para todos os que amem cinema, muito simplesmente porque ele não dá grande margem para dúvida. Os filmes dele são tão bem feitos, tão equilibrados sem serem politicamente corretos que atraem todos os apaixonados por cinema.

Nessa medida faz lembrar um monstro da sétima arte e o meu realizador preferido de sempre: Kubrick. O problema que eu tenho com o Nolan é o Dark knight. Na minha opinião atingiu um patamar tão elevado (o Dark Knight deve estar no meu all time top 10) que é difícil ver os filmes pós Dark Knight sem ter as expectativas inatingíveis.

Mesmo considerando este factor, o Inception consegue vencer. Tem um argumento original (o Dark Knight também) e um universo e personagens originais (o que já não acontece com o Batman). A história está excecionalmente bem conseguida. Complexa, que pede várias visualizações, mas que não deixa de satisfazer os mais variados públicos na primeira vez que se vê.

Introduz as pessoas no conceito, o público percebe e fica satisfeito, compreende que é um filme com várias layers, não as apanha a todas na primeira visualização, mas entende que é um filme suposto ver várias vezes. O Leonardo Di Caprio está mais uma vez em grande forma, e a realização é realmente notável tirando o partido máximo de todas as áreas do filme: Casting, efeitos especiais, fotografia, montagem, argumento, banda sonora, etc. Tecnicamente é assombroso, tendo recolhido a maioria dos prémios destas áreas até agora.

O filme tem mais outro mérito bem importante. Contrariando o hábito cada vez mais irritante dos estúdios de lançarem todos os bons filmes na altura dos Óscares, o Nolan lançou-o a meio do ano e não teve medo de amadurecer na cabeça dos críticos. Amadureceu bem e é o único filme sem medo que chegou à época dos prémios sem beliscões e em grande forca.

 

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3 – TRUE GRIT

Os manos voltaram a fazer uma obra-prima. É mais forte do que eles. Depois de Fargo e No Country for old men (também este um grande western mas passado nos nossos dias), os Cohen fazem a sua terceira obra-prima. Os filmes dos Cohen, e estes em particular, são lições de cinema.

A história, a direção de atores, a fotografia, o editing, o costume design, o som, a música, tudo é executado na perfeição e com uma sabedoria de quem ama e percebe muito de cinema. O sentido de humor dos Cohen trazem sempre uma componente original e tornam-nos únicos e verdadeiras obras de autor. O argumento é excelente, com diálogos de época construídos de uma forma inteligente prendendo o espetador do principio ao fim do filme, a história é cativante e tudo o que se espera de um western ao melhor nível.

O Jeff Bridges tem eventualmente o melhor papel da sua carreira, muito melhor que em Crazy Heart, e melhor que em qualquer outro filme que tenha visto dele. A sua voz esta praticamente irreconhecível, juntamente com a sua imagem que encarna totalmente o wild and dangerous west da altura. A atriz principal é magnífica, uma performance digna de Óscar (será uma injustiça se perder para a Helena Boham Carter), e é uma das principais atracões do filme. É definitivamente o ano das mulheres. Não me lembro de um ano tão bom para as mulheres como este: Black Swan, Kids, Love and other drugs, True Grit, Kick Ass, Winter’s bone… o difícil é escolher.

O resto do casting está muito bem escolhido com os já habituais (nos filmes dos Cohen) atores secundários escolhidos a dedo e que fazem toda a diferença no resultado final. Feios porcos e maus como se pretende de um bom western (conceito introduzido pelo génio Sergio Leone). A dinâmica e química entre o Jeff Bridges e a Hailee Steinfeld resulta ao nível das melhores duplas da história do cinema.

A edição poderá ser mesmo a melhor do ano. Os Cohen montaram o filme magistralmente contando a história de uma forma fluida, clara, inteligente sem uma única cena fora do sítio, sem desperdícios. Os únicos desperdícios foram a favor do humor o que se compreende no sentido que trouxeram obvias mais valias ao filme (inesquecível cena do Rooster e ela à espera na neve do suposto perseguidor que quando aparece se revela uma personagem inesquecível). Menos “arte” que no Country, menos “humor” que no Fargo, mas mais filme (no geral) e mais história. A terceira obra-prima dos Cohen está aí. Esperemos que continuem por muitos e longos anos, considerando que são dos realizadores mais criativos e talentosos da atualidade.

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4 – TOY STORY 3

Depois do Wall-e e do Up, a Pixar tinha colocado a fasquia tão alta, que mesmo com todo talento que emana de San Francisco Bay, eu e muitas outras pessoas interessadas nesta área da sétima arte, duvidavam seriamente que a Pixar conseguisse superar as expectativas.

Com o Toy Story 3, a Pixar conseguiu fazer qualitativamente o melhor filme até à data como conseguiu alcançar a marca do filme de animação com a maior receita de bilheteira de todos os tempos (1 bilião de dólares worldwide).

Conseguiram colmatar todas as falhas que ainda subsistiam nos filmes anteriores. Ao Wall-e faltava-lhe o lado humano podendo ser considerado um filme mais “frio” e ao Up embora tenha 2 cenas absolutamente transcendentais tinha o “problema” de poder ser interpretado como um filme muito infantil. O Toy Story 3 ultrapassa estas questões, produz o melhor filme da trilogia, supera as expectativas e alcança desta forma a coroa da Pixar.

Primeiro que tudo, os temas tratados no filme são universais e aí reside a genialidade do mesmo. Temas acessíveis e intemporais para todas as pessoas desde os 8 aos 80 anos. O abandono, a amizade e a mudança são abordados de uma forma bem profunda e ao mesmo tempo ligeira o suficiente para não o tornar demasiadamente dramático

A importância da adaptação à mudança, de largar o passado para poder abraçar o futuro. Depois temos os personagens… Fabulosos… Não existe um único personagem que não apeteça ver e rever. Depois temos o humor. Depois temos a história. É um fabuloso filme de aventuras. Ao nível dos melhores filmes de aventuras. Ris, choras, refletes, entusiasmas-te, torces pelos personagens, não dás pelo tempo a passar e ficas com pena quando acaba. O que é que se quer mais no cinema? A Pixar volta a colocar a fasquia mais alta e torna-se cada vez mais um marco incontornável na história do cinema e uma das organizações mais criativas do mundo.

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5 – GRAN TORINO

A par do Imperdoável, Mystic River e Million Dollar Baby, é um dos mais perfeitos filmes de um dos meus realizadores preferidos. O filme fala de uma das minhas frases favoritas de sempre que é: everything you know is wrong. Até no final da vida se pode aprender que tudo o que se fez e tudo o que se é, está errado. E o mais impressionante é que nesse mesmo final da vida, há lugar para arrependimento. Podemos aprender a fazer o que está certo, podemos desfrutar desse momento e sermos felizes. Podemos dar o melhor de nós e fazer uma coisa transcendental que é ao mesmo tempo redentora e altamente solidária e caridosa. Podemos salvar a vida de uma pessoa. E tudo isto é interpretado pelo grande Clint no, talvez, melhor papel da sua carreira e deixa o espectador sem palavras. Quem tem dúvidas sobre o que anda cá a fazer neste mundo, veja este filme. O Clint explica.

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6 – THE FIGHTER

É irritante que os bons filmes se acumulem todos no final do ano. Este filme é o caso. É possivelmente o filme que melhor descreve um ambiente saloio no seu expoente máximo. O bairro e as personagens onde decorre a ação são de um nível tão baixo que vale a pena ver para satisfazer a curiosidade. A recriação deste ambiente está perfeita. E isto por causa do excelente argumento, mas principalmente do fabuloso casting.

O gigante Christian Bale é dos principais responsáveis pelo nível de realidade saloia que o filme consegue atingir, mas todos estão fenomenais com um destaque especial para a mãe dos protagonistas principais. O que acaba por ser muito interessante é que, por mais diferente que seja a realidade onde tu vives, seja alta sociedade ou baixa ao seu mais baixo nível (que é o caso), vais acabar por ter sempre os mesmos problemas e as mesmas mecânicas.

A influência do meio onde vives e da tua família são sempre elementos importantíssimos na gestão da tua vida e que podem fazer a diferença entre o sucesso e o insucesso. Seguires o que tu achas que é o mais correto é quase sempre a decisão mais acertada e não o que o teu meio acha o mais correto. Lutares contra o teu meio exige sempre uma coragem muito grande, lutares contra as tuas raízes, contra o que te disseram sempre que era o mais correto. Essa luta por vezes é mesmo necessária e pode mudar a tua vida.

E neste caso a luta do Mark Wahlberg (ele também com um excelente papel) é inspiradora e torna o filme inspirador. O argumento é excelente com diálogos e personagens fabulosas que por vezes nos fazem lembrar os melhores “Scorceses”.

Às vezes os inimigos estão mesmo à tua porta, e só tens a ganhar se te aperceberes disso. Como o Bono disse, “Dá sempre atenção aos teus inimigos que eles vão durar mais tempo que os teus amigos”. A grandeza do argumento está no facto de manter os pés bem assentes na terra. Não assume os inimigos nem os amigos como óbvios e a família tem sempre um papel importante a desempenhar. Como na vida de cada um de nós, a família é sempre um elemento fundamental a gerir por mais que não se queira. Não há como “fugir” da família (para o bem e para o mal).

O Mark Twain tem uma frase absolutamente genial que é: “nunca subestimes a quantidade de pessoas que te querem ver falhar”. Neste caso podemos acrescentar, nunca subestimes a quantidade de pessoas que se estão nas tintas para ti. E se não fores tu a lutar pelo teu sucesso e pela tua felicidade nunca ninguém o fará.

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7 – BLACK SWAN

Para quem gosta de arte e do meio artístico, gosta e gostará sempre de ver filmes sobre talento. Onde existe, como existe, como aparece, quem o tem e porquê. Os bons filmes sobre este tema nunca explicam, mas dão bons indícios com personagens (e atores) fenomenais que nos fazem ficar mais perto e de alguma forma perceber essa coisa maravilhosa (e na maioria das vezes penosa) que é o talento.

O Amadeus mergulhou-nos nesse mundo e o Black Swan também. Falo dos dois pois ambos exploram e associam a loucura e o sofrimento ao talento de exceção. O “Diário” de Chuck Palahniuck vai mais longe e diz que o talento é o resultado de um caminho de sofrimento. Sem esse caminho, ninguém alcança o talento de exceção. Gosto deste tema e por essa razão gosto automaticamente do Black Swan.

Para além disto temos uma transcendental atriz e performance, talvez das melhores performances que vi em cinema. E o mais engraçado é que com esta performance, a Natalie Portman encarna na perfeição a mensagem do filme sobre o talento.

Depois temos um excelente realizador, que o meu amigo e jovem realizador Henrique Pina muito gosta e com muita razão. Filmou e editou o filme com uma excelência exemplar, e nos dois últimos filmes dele, sacou a melhor performance de sempre dos seus respetivos atores principais. É um realizador superior e para acompanhar no futuro. A forma como ele filma a maioria das cenas, em especial as de bailado chegam a ser inovadoras. O filme é obsessivo e desconfortável o que é sempre bom e uma lufada de ar fresco nas dezenas de filmes confortáveis e maus que existem hoje em dia.

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8 – KIDS ARE ALL RIGHT

É um filme importante. É um filme que contribui para que um passo seja dado na tolerância. Para quem é contra o casamento gay e contra a adoção de crianças por estes casais, este filme pode abrir algumas perspetivas (embora duvide que alguém que tenha estas convicções veja este filme, mas enfim).

Uma família com um casal homossexual pode ser muito mais funcional que uma família tradicional. Esta história é um bom exemplo disso. Desde que haja amor, respeito, responsabilidade e preocupação, qualquer criança pode ser bem-educada e crescer saudável física e psicologicamente.

O filme coloca outra questão para discussão. Independentemente das preferências sexuais do casal, TODAS as famílias são complicadas, mas ao mesmo tempo absolutamente essenciais. Muito importante a cena em que a filha chega às instalações da faculdade, tenta dar um ar independente mas desespera quando pensa que a família se foi embora sem se despedir dela. E emociona-se (emociona-nos) quando finalmente descobre que afinal só tinham ido estacionar o carro e abraçam-na intensamente.

O elemento desestabilizador desta família não podia ter sido melhor imaginado: O pai biológico dos miúdos, ultra cool, com uma vida sofisticada, com pinta, com uma empatia natural com eles, ou seja, o argumento perfeito para colocar esta família à prova. O Mark Ruffalo tem uma interpretação cirúrgica desta personagem. Todas estas interações estão excecionalmente conseguidas, nunca tomando partidos e passando sempre a mensagem que a vida e as famílias não são fáceis, mas há que tentar, pois são tudo pelo que vale a pena lutar.

E com famílias assim, os “kids” estarão sempre “all right”.  Para finalizar… Aparece a atriz negra mais bonita da história do cinema. E a Anette Bening é muito provavelmente a melhor atriz do ano. À medida que se vai vendo o filme o único pensamento que vem à cabeça é que é impossível esta mulher não ganhar todos os prémios de representação este ano. Só há um ligeiro problema chamado Natalie Portman que poderá e deverá com toda a certeza, estragar a festa.

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9 – SHUTER ISLAND

Depois de ter anunciado que iria deixar de trabalhar de vez com os estúdios norte americanos, o Scorcese lá voltou a fazer mais um filme em terras (e com o dinheiro) do tio Sam. Não é um dos melhores filmes do Scorcese, mas é um grande filme, melhor que muitos filmes dele e um dos melhores filmes do ano. As referências a géneros noir e terror são um dos pormenores mais interessantes do filme.

O Leonardo di Caprio tem uma representação impecável como já é hábito, e o filme é recheado por atores de topo com representações notáveis. A mente controla tudo inclusivamente a realidade que é vivida por cada um de nós. A premissa é forte e a história fortalece e explica bem esta perspetiva. O twist final é muito bem conseguido e pede uma segunda ou terceira visualização para desfrutar bem da história. A realização, edição, banda sonora é Scorcese no seu melhor. O filme é um excelente produto de entretenimento. Sem grandes mensagens de fundo, mas com todos os pormenores que fazem um grande filme de entretenimento. Estreou no início do ano e desde esse momento q se tem mantido acima da concorrência.

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10 – SCOTT PILGRIM VS THE WORLD

Muitos parabéns a todos os que contribuíram para que este filme fosse feito. Pois todos eles, desde o realizador ao estúdio (e principalmente este) poderão estar a passar um mau bocado neste momento. O filme era complicado de vender e isso confirmou-se (em Portugal estreou em 2 salas a medo e nas 2 semanas seguintes desapareceu… Sem comentários).

E o que me agrada, e por isso dou os meus parabéns, é que acredito que todos os envolvidos tinham noção do risco que estavam a correr, o que lhes dá ainda mais mérito É assim com alguns filmes que ficam para a história do cinema, e será assim com este. É assim com todas as pessoas que querem arriscar muito, é assim com todos aqueles q fazem coisas absolutamente novas que ninguém entende numa primeira fase mas q depois se tornam clássicos

O filme é inovador. Respira novidade, qualidade, inovação, criatividade. Quebra as barreiras e os limites, mas dando a sensação óbvia que assim é que deve ser feito e que é assim que já se deveria fazer há muito tempo. Ao mesmo tempo recolhe referências de uma geração agora entre os 30 e 40 anos. Por último, e porque sou fã do género ainda mais relevância tem para mim pessoalmente, é a melhor comédia do ano. O Michael Cera torna-se cada vez mais uma referência absoluta na comédia moderna acumulando também outra das grandes comédias dos últimos anos. O genial superbad.

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11 – WINTER’S BONE

Como é que vês o mundo com 17 anos? Como é que vês o mundo com 17 anos com 2 irmãos pequeninos e uma mãe doente? Como é que vês o mundo com 17 anos com 2 irmãos pequeninos, uma mãe doente e sem dinheiro sequer para comer? O que é que fazes (com 17 anos) quando a única coisa que pode salvar a casa onde vives é encontrar o teu pai que a hipotecou e fugiu por problemas relacionados com a justiça?

Nesta história, a personagem principal tenta encontrar o pai contra tudo e contra todos. “Todos” que neste caso é uma sociedade americana do interior profundo, uma comunidade fechada de hillbillys do pior e que à medida que o filme se vai desenvolvendo se percebe que fazem quase todos parte de uma gigantesca conspiração sobre o desaparecimento do pai.

O genial deste filme é que é tudo visto aos olhos de uma “criança” de 17 anos, sem maldade e com o único intuito de encontrar o pai para se poder salvar a si e principalmente a sua família. Estes 17 anos adultíssimos são maravilhosamente interpretados pela Jennifer Lawrence e deixa-nos com um nó na garganta. A história dá um twist inesperado, e o twist diabólico da história não é repentino e no final do filme como habitual. Vai se apresentando aos nossos olhos como se fossemos a protagonista principal sem maldade suficiente para perceber o que se está a passar à sua volta.

Quando percebe, reage com a coerência que se espera da personagem criada numa cena absolutamente notável a nível de representação. Há pessoas assim. Que se guiam pelo que esta correto, sem maldade e com uma coragem avassaladora. São as luzes nos locais escuros. São as pedras na tempestade que é a vida. São a inspiração para um mundo melhor. E filmes que passem essa mensagem também estão a contribuir de alguma forma para um mundo melhor.

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12 – BAD LIEUTENENT

Nicholas cage is back in bussiness, na melhor forma desde os anos dourados (Wild at Heart, Arizona Junior, Leaving Las Vegas). Só por isto já vale a pena ver este filme. Acho uma enorme desconsideração por esta grande performance não ter estado presente nos vários prémios de cinema ao longo do ano. Mas o cinema é assim, os Cães Danados não tiveram qualquer nomeação para os Óscares.

Há filmes que não estão destinados a consensos. E este é definitivamente um deles. Centra-se numa personagem complexa e negra, mas muitíssimo bem construída e fenomenalmente interpretada. É também o melhor filme de Herzog dos últimos anos. A personagem do Nicholas Cage é absolutamente desprezível, negra, louca e moralmente negativa, mas consegue ser assim e ter poder real para interferir e mudar a vida das pessoas. O filme consegue de uma forma credível nos mostrar como uma pessoa assim pode perfeitamente viver em sociedade e manter o seu poder intocável.

Um bom retrato dos podres da nossa sociedade atual com o Nicholas Cage a credibilizar em absoluto a sua personagem e o filme como um todo. Outro pormenor muito interessante é como o Herzog filma a loucura do Nicholas Cage. Com quebras absolutamente inovadoras e loucas a meio do filme que nos surpreendem e nos deixam desorientados. Um grande filme e um grande ator em 2011 (espero que seja o comeback do nicholas cage que é um grande ator e ainda tem mesmo muito para dar).

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13 – EXIT TROUGHT THE GIFT SHOP

Há filmes assim. Aparecem não sabemos bem de onde, por artistas que não conhecemos bem, em formato de documentário e que se tornam dos melhores filmes do ano. O artista em questão é um artista de street art reconhecidíssimo (Banksy) que decidiu fazer um filme/documentário. Foi inteligente o suficiente para saber o que era preciso para fazer um bom filme e com isso não comprometer a sua excelente carreira. E um bom filme, na sua base, só precisa de 2 coisas. Contar uma boa história e ter personagens cativantes. Tudo o resto vem atrás. Neste caso são real life characters com uma história transcendental. Aproveita para nos apresentar o mundo da street art, que provavelmente a maioria das pessoas desconhece mas que é altamente cativante, desafiante, inovador e criativo. Um dos mais refrescantes filmes de 2010.

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14 – THE TOWN

Sem espinhas. É um excelente filme intemporal. O Ben Aflleck definitivamente tem de se dedicar à realização. Depois de um excelente Gone baby Gone (ainda melhor que este), continua a sua caminhada bem seguro e com grande talento. Filma e conta histórias reais de pessoas reais e em locais reais. Sente-se a realidade nos filmes dele sem com isso deixar de contar histórias interessantes. Descreve o meio pobre da sociedade americana (especialmente de Boston) de uma forma exemplar e coloca-nos entre estas personagens de uma forma que faz lembrar uma das melhores séries de televisão de sempre (The Wire). Consegue grandes performances dos seus atores. Ou seja, está no caminho certo e tem o talento que se pretende de um bom realizador. Penso que poderá vir a ter um filme ainda mais reconhecido se mantiver este nível para o futuro. Mais um bom realizador para se juntar a um naipe cada vez mais restrito.

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15 – KICK ASS

O filme dos super heróis sem super poderes. Ao contrário do Scott Pilgrim que coloca o fantástico à frente (MUITO À FRENTE) da realidade, este é exatamente o contrário. A realidade está sempre a lembrar os super heróis que não tem poderes sobrenaturais. Mas que podem ter poder para ajudar (no caso dos bons) ou prejudicar (no caso do maus) se realmente quiserem e se se esforçarem para isso. O mote é este mas o filme é excelente pelo argumento e pela excelente comédia que se tornou. Este mote permite ter cenas hilariantes entre os vários personagens. O Nicholas Cage está excelente pela segunda vez este ano e este filme traz ao mundo do cinema uma das suas maiores promessas. Uma fenomenal performance de Chloe Moretz como Hit Girl. Uma miúda de 13 anos que transporta o filme às suas costas e que nos deixa absolutamente rendidos às suas capacidades. Adoro esta miúda como atriz e é um prazer vê-la em ação. Já fez este ano mais um filme “forte”, a adaptação do Let the right one in (que me recuso a ver por ter gostado tanto do original sueco) e de certeza que nos continuará a surpreender no futuro. Chloe Moretz. Um nome a seguir e a razão deste filme estar nesta lista e não o King’s Speech.
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Melhor Filmes de 2009

 

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1 – Inglorious Basterds

Sou apologista que os filmes que dão que pensar, que transmitem uma mensagem, são os que dão mais prazer em ir ver. Não é o caso do Inglorious Basterds. Não tem nenhuma mensagem específica, a não ser a típica “What if” e já vista noutros filmes. Neste caso é o maior “What if” da história do cinema (e dos mais credíveis) e só poderia ter sido levado a cabo por um realizador com um talento como o do Tarantino.

Inglorious Basterds é puro entretenimento, e nessa perspectiva dá que pensar. Não é também para isso que o cinema existe? O cinema também existe para que durante 2 horas o espectador tenha um escape, se entretenha, se divirta, e veja um filme de qualidade. O argumento é dos mais originais, divertidos e bem escritos do ano, o casting e direção de atores é sem dúvida o melhor do ano, a realização impecável, a fotografia excelente e a banda sonora do melhor que o Tarantino nos trouxe até agora.

A última deixa do filme pode parecer prepotente, mas se pensarmos bem na performance do filme talvez até não seja. Diga o que se disser, o objectivo maior de um artista é comunicar e ter reconhecimento crítico. Nesse aspecto este filme teve uma performance como poucos filmes na história do cinema. Liderou as bilheteiras mundiais durante o período que esteve em cena e teve das melhores críticas do ano. São feitos raros, lembro-me assim de repente de 3: Dark night, Titanic e Senhor dos Anéis. Nesse aspecto “esta poderá ser a obra-prima de Tarantino”. Os filmes de guerra nunca mais serão os mesmos depois deste IB. Não está ao nível de Pulp Fiction apenas e só porque não vai revolucionar o cinema (como o Pulp Fiction o fez). Para mim, é o melhor filme de 2009.

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2 – Avatar

O que na minha opinião é o segundo melhor filme do ano, é exatamente o oposto do anterior. Este é o filme-mensagem do ano. De uma forma simples e acessível passa-nos a grande mensagem que todos precisamos de ouvir. Precisamos cada vez mais de respeito. Respeito pelos outros seres vivos, respeito pelas outras crenças, respeito pelo local onde vivemos, respeito por nós próprios.

Pode parecer uma história simples com personagens tipificadas, o que até é verdade, mas é importante que assim seja, se se quer assumir como um filme que passa uma mensagem para o mundo inteiro (o Avatar ajudou finalmente a “verdade inconveniente” do Al Gore a chegar ao mundo inteiro em massa). Para que seja universal é necessário que seja simples. E realmente a história e as personagens são mesmo a única coisa que é simples neste filme. Tudo o resto é do mais inovador que se tem visto até hoje. Mesmo que não se veja o filme em 3D, é absolutamente único, com um mundo criado de raiz que é simplesmente fascinante. A personagem feminina é excelente, é a alma do filme e personifica a ligação com a natureza de uma forma genial. Dá sentido a todo o filme, pois essa força, essa ligação com a natureza, é essencial para que tudo o que se passa no filme seja credível e coerente.

O Avatar dá-nos que pensar a vários níveis e faz analogias com inúmeras situações atuais e passadas na história da humanidade. Tudo o que acontece no filme não acontece por acaso. Aliás, nós, enquanto espécie humana, somos os vilões o que também é uma inovação. Se pudesse resumir todas as mensagens e sub-mensagens que este filme nos revela, escolhia uma cena do filme em que o avatar do jake está a pedir ajuda à tree of souls (elemento central, espiritual, e de equilíbrio de toda a civilização Na’vi) e diz: “Por favor Mãe, ajuda-nos a combater os humanos. Eles destruíram a Mãe deles há muito tempo. E agora vêm para destruir a nossa”.

Quem quiser ver a mensagem, vê. É clara. Basta ver as notícias. Basta ver a desflorestação galopante da amazónia e de sociedades de índios que lá vivem. Basta ver a incoerência da Guerra quando nos ensinam que matar é o pior crime que alguém pode cometer e depois nos mandam para matar os nossos semelhantes. Basta ver os testes nucleares no pacifico. Basta ver o aquecimento global a destruir o planeta. Basta ver isto. E nós, sociedades civis, vemos. Mas depois há sempre alguém com mais força que continua. Enquanto nós todos que nos preocupamos não fizermos nada contra, continuaremos apenas a ver. Obrigado Avatar pelo wake up call. Espero que tenha os seus resultados.

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3 – Hurt Locker

Uma das minhas cenas preferidas de todos os filmes que já vi, é do filme Jarhead do Sam Mendes. Para quem não viu o filme, passa-se na guerra do Kuwait, e a determinada altura o Jamie Fox e o Jake Gyllenhaal estão num cenário devastador. Estão numa cratera no meio de milhares poços de petróleo que foram queimados pelos iraquianos à medida que os americanos avançavam no terreno. Estes poços ao serem queimados deitavam fumo preto que cobriam totalmente os céus, ficando um cenário totalmente infernal.

No meio deste “inferno” o Jamie e o Jake estão os dois sentados numa cratera a ver todo este cenário e o Jamie diz: “Agradeço a Deus, todos os momentos que passo aqui na Guerra. Amo esta profissão do fundo do meu coração e não sei o que faria sem ela…. Urra”. Numa única cena, com um diálogo tão simples, mostra-se como o mundo seria melhor se todos fossemos como o Jamie. Com um auto-conhecimento completo que lhe permite saber quem é, o que quer, e para onde vai, sente-se totalmente realizado e feliz. Independentemente de como a Guerra e o inferno é interpretado pela maioria das pessoas, para ele é sinónimo de realização, e isso é que interessa.

O Hurt Loker faz um filme inteiro que assenta neste conceito. Enquanto que o Jarhead tem inúmeros problemas técnicos, de construção da história e até das personagens, o Hurt Loker não tem absolutamente nenhum problema enquanto filme. Tudo é feito na perfeição. Tudo o que aparece no filme é perfeito. O casting, a história, as personagens, a fotografia, a montagem, a realização, a banda sonora. Está tudo no lugar, para assim poder passar esta mensagem de que se te conheceres a ti próprio estás sempre no sítio certo, na altura certa para fazer o que é preciso.

Passa outra mensagem muito importante e que mais uma vez tem alguma ligação com a mensagem que o Avatar tenta passar. O Avatar mostra o que os humanos gostariam ou deveriam ser, e retrata-nos como seres pouco evoluídos com o único objectivo de sobreviver e prosperar à custa de tudo e todos à nossa volta. Quando o general está a atacar e destruir a árvore da vida dos N’avi, há qualquer coisa no olhar dele que vai para além do objectivo de sobreviver e prosperar à custa de tudo e de todos. Há um genuíno prazer na destruição. E essa é a outra das mensagens que Hurt Loker passa tão bem.

Explica o dirty little secret da guerra. Explica o prazer que os homens têm em fazer guerra com a desculpa que esta é inevitável. Este prazer é considerado polémico porque supostamente ele não deveria existir porque supostamente as guerras não deveriam existir, mas o facto é que ele existe desde que somos miúdos e queremos estar a disparar armas nos jogos de computador. O que é verdade é que ele existe e está aí o Hurt Loker para nos relembrar disso. Um grande filme sobre o tema “Guerra”. Explica a guerra melhor do que muitos filmes de referência já realizados no passado (interessante ser realizado por uma mulher).

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4 – Up in the air

Está repleto de mensagens que são transmitidas de uma forma divertida e inteligente. Constroi-se como uma comédia romântica, para depois poder destruir totalmente esse conceito de uma forma desconcertante e eficaz. È importante que assim seja para que a mensagem principal seja passada. Mais do que o filme pessimista do ano (embora com imensos momentos cheios de piada), é uma wake up call para todos nós. Uma wake up call diferente do Avatar, mas ambos se complementam com 2 mensagens fundamentais para vivermos melhor no futuro (e, como espécie humana, nunca precisámos tanto destas indicações como agora).

O bottom line do filme é: todos nós, cada vez vivemos mais “up in the air”. E sabem porquê? Porque cada vez que “descemos à terra”, só encontramos desilusões. E quando isso acontece preferimos voltar “lá para cima”. Cada vez vivemos mais desligados das nossas relações, mais egoístas, com menos disponibilidade para partilhar. E todos nós somos responsáveis por isso.

Embora ela seja a “vilã” do filme, foi uma personagem construída para nos mostrar como a nossa evolução e como os nossos princípios atuais (ou falta deles) contribuem para que as ligações pessoais sejam cada vez mais desvalorizadas. Mas nesse contexto, nem se poderá julgá-la, mas poderemos perceber onde estamos e para onde vamos.

É excelente a forma como o filme cria o homem-objecto nas mãos de uma mulher (que me lembre é o primeiro filme que faz isto de uma forma totalmente credível e descomprometida). Tem dos melhores diálogos do ano, com especial ênfase para o diálogo entre o Clooney e o noivo da irmã que de repente ficou com second thoughts antes da cerimónia do casamento. Os 3 atores principais estão todos no topo de forma, com representações brilhantes. É um dos filmes-mensagem do ano e transmite, de uma forma não forçada, uma mensagem bem importante nos tempos que correm. Por isso e pela realização e interpretações brilhantes merece estar no topo desta lista.

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5 – Up

A Pixar está com a fasquia altíssima. Mais alta do que alguma vez esteve. Fizeram uma revolução no cinema com o Toy Story e desde aí têm vindo sempre a crescer de filme para filme. Sempre a inovar. E nos 2 últimos filmes conseguiram uma coisa que mais nenhum outro filme de animação alguma vez conseguiu na história do cinema.

Colocaram os seus filmes entre os melhores filmes do ano a par com todas as outras longa metragens “não animadas”. O Wall-E já fez parte da lista dos melhores filmes do ano passado. Mas com o Up conseguiram fazer ainda melhor. Sem deixar de ser um filme de aventuras e que os mais pequenos irão adorar, conseguem criar personagens inesquecíveis e conseguem criar 25 minutos do melhor que já se viu na história do cinema.

Só por causa desses 25 minutos (15 no inicio do filme + 10 no final), já fazia sentido este filme estar entre os 10 melhores filmes do ano. Como a Empire disse, se o filme mantivesse o nível dos primeiros 15 minutos, seria o melhor filme da década. É verdade. Como não mantém, é apenas um dos melhores filmes do ano. Na minha opinião, o 5º melhor.

Aprendemos a viver com Up, e ao vê-lo apercebemo-nos que na realidade nem sempre o fazemos como deve de ser. Ensina-nos a lidar com desilusões, com sonhos desfeitos (quando estes nos são vendidos ao segundo na nossa sociedade atual). A forma como ultrapassar estes momentos tristes da vida é tão simples… tão simples. E estas personagens mostram-no melhor do que ninguém. Ultrapassa-se com amor, com muito amor e humildade.

Não me lembro de ter visto o amor tão bem representado num filme há muito tempo. Aliás, é possível q seja das melhores representações do amor que já vi no cinema. E por isso, o Up é um filme muito especial. A grande revelação deste ano. Aprendam com ele.

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6 – Watcmen

Estreou no inicio do ano sem nenhumas pretensões (afastado de todos os festivais de referência) e assim continuou sem grandes intervenções nas melhores entregas de prémios de cinema mundiais. Para mim, é 6º melhor filme do ano.

Visualmente estrondoso, e altamente filosófico, é muito violento e rodeado de personagens negras, complexas e altamente carismáticas. Elabora um interessantíssimo exercício filosófico sobre a nossa sociedade que tem na personagem do comediant o seu expoente máximo. O comediant antes de ser assassinado ri-se e diz: “This is all a fucking joke”.

Depois de vermos o filme e descobrirmos a “trama” bem ao estilo de filme noir, percebemos o que ele quer dizer e não podemos deixar de sentir uma enorme empatia por esta personagem. Rorschac, é a par de Comediant, a personagem mais inesquecível do filme. É genial como a linha condutora do filme se vai desenvolvendo através de Rorschac e da sua investigação ao estilo de Filme Noir.

Será que precisamos mesmo de catástrofes para nos unirmos? It’s a milion dollar question que o filme deixa no ar, e que dá muito que pensar sobre os mais variados acontecimentos dramáticos que já passámos na nossa História. Tem a melhor “line” do ano: a determinada altura do filme, o Rorschac é preso e encarcerado numa prisão onde se encontram inúmeros prisioneiros que tinham sido colocados lá por ele. 70% da prisão quer vê-lo morto e a sofrer. No refeitório da prisão, Rorschac está na fila com um prisioneiro atrás dele que lhe diz que ele vai morrer naquele mesmo dia. O Rorschac pega no óleo a ferver das batatas e despeja sobre o corpo do prisioneiro que o estava a ameaçar, ficando este automaticamente desfigurado numa cena de violência extrema. O Rorschac vira-se para os outros prisioneiros e diz: “Vocês ainda não perceberam. Não sou eu que estou aqui preso com vocês. SÃO VOCÊS Q ESTÃO AQUI PRESOS COMIGO!!!!

Tem dos melhores genéricos que já vi e é de um realizador em ascensão que até agora só fez filmes brilhantes. Zack Snider. Um nome a seguir com atenção.

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7 – Let the right one in

Num ano em que os bons filmes de terror foram poucos, aparece um dos melhores dos últimos anos. Aparece nesta lista pois é muito mais do que um filme de terror. É uma excelente história com fabulosas interpretações. É uma história de personagens assombradas, é uma história assombrada que arrepia. É uma história daquelas que se contam ao redor de uma lareira e que todos nós gostamos de ouvir (incluindo as crianças). Nesse contexto é das melhores histórias do ano (a par talvez de Moon). E fala-nos de vampiros a sério. Para quem acha que estão a destruir a imagem dos vampiros, como eu acho, é refrescante continuar a ver vampiros assim.

Os vampiros podem ser sedutores, e toda a tradição assim o sugere, mas não podem ser tratados como personagens de um conto de fadas ou de uma série para teens. Os vampiros são como neste filme, são como nos vampiros do Carpenter e do Copolla, são como no 30 days of night. Assim vale a pena ver filmes sobre vampiros. De resto, e mesmo para quem não gosta especialmente de filmes de terror, vale a pena ir ver este. Os dois atores principais, que são duas crianças, estão fabulosos, e tudo no filme é bem feito desde a banda sonora, à montagem, à fotografia, etc. Um dos filmes do ano.

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8 – Moon

Todos os filmes contam uma história. Mas existem aqueles que contam uma história para entreter, outros para passar uma mensagem, outros para afirmar manifestos políticos, sociais ou até filosóficos. E depois existem outros que simplesmente querem contar uma boa história. Como disse em cima com o Let the right one in, daquelas que todos nós gostamos de ouvir em reunião com os amigos, numa noite de verão na praia a olhar para o céu estrelado.

O Moon é assim, e na minha opinião é a melhor história do ano. Para além disso, bebe dos melhores filmes de sempre de ficção científica (2001, Alien, Espaço 1999 e Star Wars). A realização, montagem e fotografia são exemplares. E depois existe o Sam Rockwell. Não dá para perceber como é que ele não está nomeado para melhor actor do ano para os Óscares. Não só merecia estar nomeado, como provavelmente merecia ganhar. É simplesmente fenomenal. Aguenta um filme inteiro sozinho e nós nem damos pelo tempo passar. Depois de ver este filme não nos conseguimos esquecer da história. É daquelas que fica connosco. E claro que dá que pensar. É o Truman Show e o Big Brother do espaço. O realizador é o filho do David Bowie (Duncan Jones) e é o primeiro filme dele. Obrigatório ter atenção aos próximos trabalhos dele.

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9 – Fantastic Mr. Fox

A melhor comédia do ano. Cada vez respeito mais o George Clooney pelas suas escolhas. O Wes Anderson já tinha coisas boas, mas com este filme superou-se e trouxe-nos um filme com um sentido de humor ao melhor nível. Já não me ria assim há muito tempo. São raras as vezes que me rio assim tanto num filme (talvez com os Monthy Python). A opção do stop motion foi acertada pois traz ainda mais piada à cara e aos movimentos dos bonecos. É uma comédia física e intelectual ao mais alto nível. Só não é o melhor filme de animação porque existe uma coisa chamada Up no caminho.

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10 – Laço Branco

Os meus géneros preferidos no cinema são comédias e filmes de terror/violência (por isso gosto tanto do Tarantino pois mistura os dois estilos em todos os filmes que faz sem exceção – algumas das entrevistas do Tarantino têm potencial de stand up comedy). Tudo o que coloque filosofia na equação só melhora ainda mais o resultado (o que acontece a maioria das vezes com bons realizadores, pois quase todos eles têm esse background). Sendo assim, só posso apreciar bastante tudo o que Hanneke nos trouxe até agora (e obviamente não estou a falar de comédias).

Haneke voltou em grande forma com o Laço Branco, continuando com as suas teses sobre a violência moderna, mas desta vez aprofundou ainda mais e tentou ir ao cerne da questão. Funny Games, com uma história bem simples, já conseguia colocar bem presentes todas as questões essenciais sobre a violência moderna. A História da violência e Eastern Promisses de David Cronenberg também são clássicas teses sobre esta questão mostrando bem como as sociedades civilizadas estão “presas” e incapazes de reagir a uma situação de confrontação e conflito. Na minha opinião, os exercícios de Haneke e Cronnenberg são muito importantes para nós nos conhecermos melhor (como espécie humana).

Como está comprovado, o auto conhecimento só traz benefícios, e estes dois senhores contribuem e muito para o autoconhecimento da humanidade. A violência sempre existiu no ser humano, não é uma característica atual, é inerente ao mesmo. Com a chegada da religião e das leis das sociedades democráticas e civilizadas, ela simplesmente ficou “presa” e “amarrada”. Anda aí como sempre andou, mas “domada” por todos estes “novos” mecanismos que a própria sociedade criou (no caso da religião, há quem diga que não foi criada pela sociedade) para lidar com esta mesma violência. Por andar “presa” e contida, por vezes “explode” como aconteceu em Columbine. Haneke com o Laço Branco, consegue nos demonstrar este processo claro como a água, e por essa razão é considerado um ensaio de referência sobre a violência moderna nas sociedades civilizadas. Excelente em todos os aspectos, desde a realização, à fotografia, aos extraordinários desempenhos. Um dos filmes do ano. Ah… e by the way… ganhou a palma de ouro ao Inglorious Basterds… o que é automaticamente um ponto a favor.

Menções (fora do Top10):

11 – Where the wilds things are

“O FILME” definitivo sobre a infância da nossa geração (final anos 70 / década 80). Na altura em que tínhamos que inventar mundos e histórias para nos entretar. Hoje em dia, basta ligar a consola para viajarmos para esses mundos com um toque do comando.

12 – Serious Man

O regresso às origens dos Irmãos Coen, mas com ainda mais qualidade. Ao nível do melhor deles (Fargo, No Country, Burn), mas diferente. Sempre a inovar.

13 – Funny People

E porque os comediantes são as minhas pessoas preferidas da nossa sociedade, não poderia deixar de colocar este filme nos melhores do ano. Consegue, a par do filme “Comedian” do Jerry Seinfeld mostrar-nos este mundo e consegue nos explicar como é a vida destas pessoas. Os comediantes são pessoas assombradas, pois são normalmente pessoas inteligentes e muito sensíveis a tudo o que as rodeia. Por isso mesmo, conseguem captar o ridículo que é a nossa vida quotidiana em sociedade. Não deixam de se rir por isso (pois qualquer bom comediante só lhe interessa uma coisa acima de tudo: rir de uma boa piada ou de uma situação cómica seja ela qual for), mas também sofrem por essa mesma razão pois apercebem-se melhor do que muitas pessoas a incoerência que a nossa sociedade representa hoje em dia. O Adam Sandler merecia mais reconhecimento pelo seu papel. Já vem demonstrando que é um bom actor e neste filme está ao melhor nível.

14 – Drag me to hell

Acho que fui o único que gostou deste filme. Mas estou tão contente por ter o Sam Raimi de volta e em tão boa forma, que não posso deixar de o colocar aqui. Quem gosta de terror e comédia, está nas nuvens com Sam Raimi.

15 – Whatever Works

Não sei se este filme é de 2009 ou 2010, mas só sei que o Woody Allen também voltou à sua excelente forma (sim, aquela antiga que já não víamos á muito tempo) e isso é sempre um motivo de felicidade J. O Match Point foi genial, mas este filme é o regresso aos filmes iniciais de Allen. E quem é fã de Allen como eu, deveria estar cheio de saudades.

Segredo dos teus olhos – ficou fora deste top porque não o tinha visto. Depois de o ver tinha potencial para ficar entre os 10 primeiros.
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