interstellar

1. INTERSTELLAR

Depois de várias vezes quase lá, o Nolan consegue o lugar cimeiro no pódio. Num ano que demorou a arrancar, o Interstellar foi o melhor.

Qualquer filme que consiga a proeza de me colocar a ler 300 páginas de física quântica e teoria da relatividade tem de ter relevância neste top.

E o poder para o conseguir vem do storytelling. Se este não fosse poderoso, o impacto de tudo o que ele tenta passar seria perdido.

E é mesmo pela ciência que este filme começou. O Kip Thorne, cientista conceituado, co-escritor do argumento e consultor em todas as áreas do filme, foi quem começou a esboçar a história há muitos anos atrás. O projeto passou por várias mãos antes, incluindo o Spielberg, mas foi com o Nolan que finalmente ganhou forma e vida.

Reestruturou tudo o que tinha a ver com ciência, simplificando a inclusão da mesma na história (inicialmente existiam vários Worm holes e Black holes) e introduziu o drama de um pai e de uma filha afastados pelo espaço tempo.

As questões científicas que o filme levanta são todas dentro do conhecimento humano até à data, o que torna tudo o que vemos no filme, possível de acontecer, provado e estudado pela ciência até agora. Algumas questões são especulativas mas não muitas. E mesmo a especulação é sempre com base num conhecimento muito concreto do tema analisado.

As construções visuais do Worm e Black hole são as mais fidedignas mostradas até hoje. E o filme gerou vários papers universitários de novas descobertas resultantes do estudo efectuado.

O filme lembra uma mensagem que se repetiu insistentemente ao longo deste ano em inúmeros filmes e que já tem vindo a ser hábito nos últimos anos, que é o alerta cada vez mais iminente da destruição do nosso planeta, algo que os países mais ricos teimam em ignorar em todos os fóruns mundiais que se vão realizando na vida real, mas que a classe artística lembra com cada vez mais intensidade e força de ano para ano.

E lembra-nos de olhar para estrelas e pensar no nosso lugar no universo.  Desafia o nosso espírito de descoberta. Lembra-nos de olhar mais para as estrelas e menos para os nossos smartphones. Faz-nos regressar aqueles tempos de infância onde ficávamos uma noite inteira a olhar para as estrelas e falar do que seria o universo e como este poderia ser infinito.

O livro “A ciência do Interstellar” de Kip Thorne é um complemento essencial a este filme e faz-nos continuar nesta aventura que é conhecer o universo que nos rodeia.

birdman

  1. BIRDMAN

Chuck Palahniuk tem um livro que se chama Diário. O Diário conta uma história de uma pintora que tem de sofrer fisicamente para atingir o seu expoente artístico. É o que eu gosto mais em Birdman. Michael Keaton tem de sofrer para se libertar da sua sombra “blockbusterniana” e para atingir o seu expoente verdadeiramente artístico. É a partir do momento que ele começa fisicamente a sofrer que a peça começa a ganhar corpo. É quando ele destrói literalmente a sua cara que se torna definitivamente num artista conceituado. Mudando curiosamente a sua aparência. É um assalto armado à praga blockbuster que vivemos. Blockbuster vs Broadway, arte vs pipoca, mediocridade vs intelectualidade, Michael Keaton vs Edward Norton.

O filme é um retrato da vida artística. As aspirações, as frustrações, as angustias, as superficialidades, o ator falhado, o ator de excelência e excêntrico, o agente frenético, a critica, a idolatração, as drogas, o poder da imagem para enaltecer e destruir, a insanidade, a adrenalina, a fúria e o desespero. Tudo condensado num único filme. Mais do que um retrato da vida artística é um retrato da condição humana.

É filmado num único take. E isso para além de ser mirabolante, vai fazer com que este filme seja estudado nas escolas de cinema. Iñárrito disse numa entrevista que tudo o que aparece no filme foi milimetricamente pensado. Nada foi improvisado.

E também disse que o filme está cheio de segredos. E duvida que alguém os descubra todos. Um exemplo é o ano em que o personagem principal deixou de fazer de Birdman (1992). É o ano em que o Michael Keaton fez na realidade o seu ultimo Batman (Batman Returns do Tim Burton).

Depois há o final, ou o closure como lhe quiserem chamar. Eu chamo-lhe final porque acho que o climax é na ultima cena, mas quem ache que o climax é o tiro no palco então que lhe chame closure.

A cena final é, para mim, onde a genialidade do filme é plena. Onde a virtude da ignorância se revela, onde o realizador goza com a nossa cara. Onde o realizador dá poderes supernaturais à personagem principal. É uma interpretação muito minha, mas se o filme é um assalto armado ao blockbuster, à pipoca, à mediocridade, é também uma ode à inesperada virtude da ignorância, e nesse aspecto, ele ter mesmo poderes é o twist perfeito. É como que se o realizador nos estivesse a dizer: “Pensas que estás a ver um filme intelectual? Então estás no filme errado porque ele tem mesmo poderes! Simplesmente não consegue ser um bom ator, ou melhor conseguiu, sofrendo.”

Uma banda sonora arrojada, arriscada, maravilhosa.

O Iñárrito nunca mais será o mesmo a seguir a Birdman. E o cinema também não.

“Popularity is the slutty little cosin of prestige”

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  1. GRAND BUDAPEST HOTEL

Grand budapeste hotel foi o meu filme preferido desde que estreou em Portugal no inicio de 2014 e até aparecer o Interstellar e o Birdman. É o meu 2º filme preferido do Wes Anderson (logo atrás do Fantastic Mr. Fox).

O Wes Anderson tem o mesmo problema do Tim Burton. Visualmente é dos realizadores mais originais e fabulosos do cinema atual, mas os filmes ficam sempre aquém por alguma razão, normalmente pelo guião. Já por uma vez o Wes Anderson tinha conseguido uma obra perfeita. Visualmente e a nível de conteúdo com o Fantastic Mr. Fox.

Para já porque o cast é infindável e ele consegue dar relevância a todas as personagens que aparecem. Sem exceção. São todas interessantes por pouco tempo que apareçam.

Visualmente, é escusado falar de WA. Sempre foi a sua força indiscutível e neste filme está no seu melhor.

O casting dispensa apresentações. Uma grande história. Um grande filme.

Whiplash-Scream

  1. WHIPLASH

Uma das teorias mais importantes do storytelling é a criação do universo da história. Isto porque uma das características que mais envolve  a audiência é a credibilidade. E uma boa construção de um universo da história dá credibilidade à mesma. Mas é das coisas mais difíceis de conseguir porque implica muitíssima investigação principalmente se quem escreve não for especialista. Implica conhecer tudo ou quase tudo sobre o que se está a contar. Se forem galáxias, planetas e Black Holes, se for uma vila piscatória, se for uma sociedade atacada por um vírus mortal. Quanto melhor o conhecimento do guionista/realizador sobre o tema, melhor e mais credível se torna a história.

Este argumento é dos melhores exemplos. Isso sente-se e vê-se, e só por isso, é já um filme que se destaca.

Depois tem 2 atores com 2 interpretações que provavelmente ficarão como das melhores das suas carreiras.

A banda sonora e a edição genial fazem a história correr de uma forma ainda mais fluente.

O storytelling é construído de uma forma brilhante, aumentando a tensão gradualmente desde o inicio até ao ultimo minuto, sendo que o ultimo minuto estica a corda da tensão ao limite, como se pretende nas grandes histórias.

A mensagem do filme, na minha opinião é dos pontos mais interessantes. Uma mensagem também presente no Birdman. O sofrimento e a obsessão diretamente associadas à evolução para um patamar artístico de excelência.

Quem quer ser muito bom naquilo que faz, não basta gostar e trabalhar. Tem que sofrer. Sem sofrimento, a excelência não se alcança.

ida

  1. IDA

Um dos filmes mais pró católicos dos últimos tempos. Se algum filme defende a espiritualidade como uma forma de vida feliz, completa e plena, o Ida é um deles certamente.

E fá-lo através de uma grande atriz e personagem, com uma empatia poderosa e imediata com a audiência, ficamos automaticamente do lado dela.

Conhecemos a Ida que viveu até à vida adulta num convento, aparentemente saudável nos valores e pessoas que integra. Mas que vai ter de sair contra a sua vontade porque a sua tia a quer conhecer, passados todos estes anos.

A agressividade do seu primeiro contacto com o mundo exterior é veiculado pela própria tia no primeiro dialogo que ambas têm.

É tão agressivo e coloca em causa tudo o que ela é, tudo o que ela acredita com apenas uma frase.

A forma como ela reage a essa agressão é tão generosa, honesta e humilde que reforçamos a empatia com esta personagem para o filme todo. Ganha-nos automaticamente.

Experimenta o nosso mundo, a violência, a angustia, o sofrimento, o desespero, o amor, o desejo, a felicidade. E depois disto tudo decide. Decide com um conjunto muito simples de perguntas. E nós, pelo menos eu, percebo-a.

Um ultimo comentário para a fotografia. É só e apenas a melhor fotografia do ano. Não há um único plano que não seja maravilhoso.

locke

  1. LOCKE

Guia para uma liderança implacável: check / Guia para uma vida baseada na verdade: check / Guia para honestidade e frontalidade: check / Guia para assumir responsabilidades e dar a cara pelos erros: check / Guia para tê-los no sitio: check / guia para o que todos devíamos ser: check.

O filme passa-se todo, integralmente, dentro de um carro com uma única pessoa. Mas os conflitos por minuto são mais que muitos filmes carregados de ação. São daqueles conflitos difíceis, credíveis, como se pede numa boa história e a tensão lá vai crescendo exponencialmente ao longo do filme com os conflitos cada  vez mais difíceis.

E nós vamos admirando a personagem exemplar que o Tom Hardy representa. Não há jornada de herói porque a personagem é a mesma no final que era no inicio.

Um ser humano exemplar como todos devíamos ser. E por isso é que gera tantos conflitos.

Mais uma estrela brilhante de 2014 que não brilhou em nenhum festival.

guardiansmain

  1. GUARDIANS OF THE GALAXY

Comparar este blockbuster com outros históricos e intemporais como o Star Wars, Indiana Jones e Regresso ao Futuro parece um pouco premeditado. Mas que dá muita vontade, dá. E eu vou mesmo comparar por variadas razões:

. Tem uma história exemplar e um universo muito rico.

. Tem personagens inesquecíveis.

. O personagem principal é um triunfo absoluto da combinação de uma personagem muito bem criada e de um ator perfeito para a representar.

. É invulgarmente divertido.

. As cenas de ação estão muito boas, servem a história e não são cansativas.

. E por ultimo e o mais importante, é um filme verdadeiramente familiar no sentido que consegue chegar a todas as idades, colocando inteligentemente ingredientes que interessam a todos.

É dos melhores e mais inteligentes blockbusters dos últimos anos, o melhor filme da Marvel, e uma viagem muito divertida. Venham as sequelas. Esperamos um “Empire Strikes Back”

Ainda bem que foi um sucesso de bilheteira planetário senão não conseguiam segurar o Chris Pratt para um segundo filme. Os assédios já vão desde o Jurassic Park, Indiana Jones e Han Solo. Nasceu um novo herói.

nightcrawler

  1. NIGHTCRAWLER

“E se eu te disser que simplesmente não gosto de pessoas”

O personagem do Jake Gyllenhaal faz lembrar as grandes personagens assombradas da história do cinema como o Taxi Driver, o Nicolas Cage em Bringing out the dead, etc.

O que é mais perturbante nesta personagem é que na realidade não há nada concreto que o assombre ou perturbe. Simplesmente não há ética ou moral. Mas há uma procura quase matemática e calculista de sentido da vida e uma vontade cega de o atingir quando descoberto. Ao contrário do estereótipo de personagens assombradas, solitárias, urbanas, este personagem tem uma enorme capacidade de comunicação, skills sociais avançados, inteligência, organização e foco.

E a solidão, muito presente na sua vida, nunca é motivo de tristeza ou depressão porque ele simplesmente “não gosta de pessoas”

Faz lembrar o Estrangeiro do Camus.

De uma forma subtil e não direta, toca em pontos sensíveis dos media nos dias de hoje. A vontade cega de atingir audiências que permite que surjam personagens destas pode efetivamente tornar-se uma realidade, se não o é já atualmente. A Rene Russo encarna notavelmente esta podridão, ganância e impotência dos media perante uma sede insaciável de audiências.

Com uma interpretação gigante do Jake Gyllenhaal, um excelente script, e uma realização notável, é um dos filmes do ano.

babadook

  1. BABADOOK

Como é que a loucura chega à nossa vida? Como é que o mal se instala? Uma pessoa que foi boa pode mudar? E será que os outros conseguem ver este mal? E será que os outros o conseguem curar?

Um dos melhores ensaios sobre a loucura em formato filme de terror desde o Shinning. Com as devidas distâncias e respectivas vénias a essa obra maior do kubrick.
Essie Davis e Noah Wiseman são das melhores representações de 2014. Se o desgosto, a loucura e a maldade têm um rosto, é a deles neste filme.

Os sustos e o “monstro” também são muito bem conseguidos especialmente através do som. A voz do Babadook assusta mais do que todos os filmes de terror de 2014 juntos.

Mas é a interpretação do que é este monstro na nossa vida que torna este filme superior, assim como as fabulosas interpretações dos seus 2 atores principais.

E a questão ficará sempre no ar. Será que podemos guardar e alimentar os nossos desgostos e medos para o resto da vida? E seguir em frente, com eles bem presentes. Será melhor assim do que tentar matá-los?
Babadook é tudo o que se pode pedir de um filme de terror que é ser muito mais do que um filme de terror.

 

maps

10. MAPS TO THE STARS

Map to the stars é uma hate letter a hollywood. Embora o argumentista (acompanhado pelo Cronnenberg) diga que analisar este script e filme como uma sátira a Hollywood dá-lhe vómitos e mostra uma visão limitada sobre o filme, eu acho que não há como fugir dessa interpretação. E ainda bem.

Como Scott Fitzgerald dizia, as pessoas muito ricas são diferentes. E nós, os que não são muito ricos gostamos de imaginar, gozar, criticar a vida deles. A natureza humana é assim.

Independentemente da curiosidade natural que as vidas diferentes causam, é um grandioso freak show e o melhor e mais “Cronnenbergiano” filme do mestre na ultima década. O que é muito bom.

Para além disso tem um desfile de atores brilhantes no topo da sua forma.

 

11. Blue ruin

12. Wind rises

13. Dawn of the planet of the apes

14. Under the skin

15. The rocket

 

Fora do Top 15:

Citizen Four

Leviathan

Winter sleep

Raid 2

Enemy

Foxcatcher

Two days one night

Boyhood

Ninphomaniac

Miss violence

Tom at the farm

2 faces of january

Fruitvale station

Cavalo dinheiro

Gone girl

Frank

 

Script Factory

 

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