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1- TREE OF LIFE

Devido ao meu amor pela filosofia e pelo pensamento livre torna-se automaticamente parcial a minha posição sobre este filme. A árvore da vida não só é o melhor filme de 2011 como é dos mais importantes filmes dos últimos dez anos.

Por 2 razões. Porque transforma o cinema como o conhecemos noutra coisa completamente diferente. Numa experiência, numa visita, numa exposição de arte e música, numa introspeção. E porque é um documento, um registo, uma “carta” da existência da vida no planeta terra. Dá um foco especial à espécie humana, mas coloca-a no seu lugar e mostra-lhe que não é ao seu redor que tudo gira. Dá uma dimensão espiritual e dá dicas para a nossa evolução. Se somos a espécie mais evoluída, então temos o dever de equilibrar a vida neste planeta.

A frase que abre o filme explica a nossa existência, dá pistas para o futuro e enche-nos de responsabilidade. “There is 2 ways trought life: the way of nature and the way of grace”. A natureza é tudo o que nos rodeia. Temos tendência em pensar na natureza como a vida selvagem. A natureza é tanto a vida vegetal, como é a vida animal, todas as espécies deste planeta (incluindo a humana), as cidades, as estradas, os prédios, a tecnologia, enfim natureza é o que é expectável. A graça é o que faz a diferença. Só a graça pode fazer a diferença. Se for pela natureza nós não teremos futuro como espécie humana, teremos um comportamento de espécie vencedora que esgotou todos os recursos à sua volta, eliminando-se a si própria por essa razão. Se calhar é mesmo assim, por ciclos até que uma geração de espécie evoluída quebre o ciclo. Mas o ciclo não pode ser quebrado seguindo as regras da natureza. Terá de ser algo diferente. Só o amor pode salvar o mundo.

É um excelente filme para ver várias vezes durante a nossa vida, para ouvir as mensagens e para recordarmos qual é o caminho que deveremos seguir. Fenomenal, transcendental, uma experiência espiritual e existencial. O Malick é o novo Kubrick. Um filme único na história do cinema. Emociona-nos durante o filme (a minha irmã chorou compulsivamente durante o filme), e depois de acabar.

A religião e a espiritualidade é e será sempre importante. Embora eu seja pessoalmente duvidoso, agnóstico, acho que é bom nos interessarmos e acho bom a espiritualidade, e principalmente acho bom o amor. Só o amor pode salvar o mundo disse uma pessoa um dia. E como ele tem razão. Este filme vai direto ao subconsciente.

Faz-nos ter noção do que é importante e faz-nos chorar por nós todos. É uma autentica obra de arte. O cinema deixou de ser 7ª arte com o Tree of Life. subiu um escalão. “Unless you love, your life will flash by… ”

O nosso próximo passo na evolução só pode ser a Graça. A tecnologia, o desenvolvimento, o crescimento, o capitalismo já eram. Bem vindos a uma nova era. E o Tree of Life esta ai para nos mostrar, recordar e principalmente Reenquadrar.

Só o amor pode salvar o mundo.

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2- DRIVE

O melhor filme dos anos 80 realizado em 2011. É inacreditavelmente 80’s no look and feel, na grandiosa banda sonora, na fotografia exemplar, na realização imaculada. Mas no meio deste ambiente surgem elementos modernos como um i-phone e pensa-se que é uma enorme “gaffe”. E começamos a aperceber-nos que não, e que o filme passa-se mesmo nos dias de hoje e as fabulosas músicas 80’s da banda sonora são efetivamente músicas feitas agora.

O Ryan Gosling cria a personagem mais cool dos últimos anos e possivelmente uma das personagens mais cool da história do cinema (ombreando com Marlons Brando’s e James Dean’s da vida). É um filme ultra-violento mas esta violência não é gratuita, aparece onde deve aparecer e é ultra realista sem esconder nada, mas coerente com a pureza do próprio filme.

Quem gosta de jogos de vídeo, conhece e já jogou um dos grandes monstros da industria dos vídeo jogos que neste momento já tem melhores performances que muitos filmes de Hollywood. Refiro-me à série Grand Theft Auto. O drive é a melhor adaptação do GTA para o cinema que alguma vez se fará. Mesmo sem querer, criaram a melhor adaptação de um vídeo jogo de sempre.

O Ryan Gosling, ator e mentor do projeto, foi ao Conan e explicou que quando estava a procurar o realizador para o filme falou com vários numa esplanada em LA, e que quando chegou à vez do Nicolas ficaram calados o tempo todo e quando ele tentava que o Nicolas lhe dissesse o que via no filme, o realizador simplesmente ficava calado. Sem esperança, o Ryan desistiu e como era a ultima entrevista perguntou ao realizador se queria uma boleia. Quando iam no carro começa dar o “I can fight this feeling” (grande clássico dos 80’s) e o Nicolas começa a chorar e diz: “o filme é isto, o filme é isto, tu a conduzires em LA, esta música, é isto, é isto”. O Ryan contratou-o imediatamente.

O Drive é um imediato filme de culto, absolutamente original. O segundo melhor filme de 2011.

The-Descendants

3- DESCENDENTES

Descendents e Tree of Life têm muitos pontos em comum. Ambos se preocupam com a evolução humana e ambos nos tocam profundamente ao passar essa mensagem. George Clooney é um homem normal com os seus problemas do dia a dia. Mas esses problemas são o que fazem a nossa vida. 90% da população da terra são pessoas normais. Geralmente, a vida normal com os seus problemas normais não tem interesse no cinema.

É aí que o Alexander Payne e o Clooney tem o seu toque de génio. Isto porque os nossos problemas “normais” estão carregados de emoções e sentimentos. Ao conseguir capta-los pode-se fazer um filme sobre o everyday life tão poderoso como este.

As personagens são praticamente todas inesquecíveis e quebram constantemente os padrões standard de comportamento que se espera de um tradicional filme e de uma forma tradicional de mostrar este tipo de personagens. A personagem do Clooney é inspiradora no sentido que nos mostra e ensina o melhor que um ser humano pode ser, mesmo sem ter a certeza de estar a fazer o que está correto e constantemente fugindo da sua zona de conforto. Quando se espera que ele quebre e descarrile, ele avança e segue o caminho sempre mais acertado.

Quando se espera que a filha teen seja um obstáculo dramático ao pai, ela torna-se uma aliada poderosa e uma das melhores performances do filme. Quando se espera que o amigo da filha seja um total atrasado mental apenas existindo para os gags cómicos, ele torna-se uma personagem central e fundamental para união da família durante esta crise aguda onde se encontram. Até a ultima decisão da personagem de Clooney é inesquecível e acertada. Até essa decisão tem a ver com o Tree of Life. Se queremos ser a espécie mais evoluída, temos de seguir o caminho da graça e não o caminho da natureza.

Não podemos ter o comportamento de vírus e temos de saber equilibrar a vida neste planeta. Sem qualquer sombra de dúvida o melhor filme de Payne e um dos melhores filmes do ano.

The Girl with the Dragon Tattoo

4- GIRL WITH THE DRAGON TATOO

“Fuck you, you fucking fuck” é a frase na t-shirt da Lisbeth quando o Blomkvist a vê pela primeira vez.

Diz-se que o Fincher fez questão de colocar a Ronney Mara com esta t-shirt como resposta aos vários fãs do filme sueco que se prontificaram a atacá-lo desde o momento em que ele oficializou que ia fazer o remake. O Fincher é assim. E é por isso que é cada vez mais um dos meus realizadores preferidos.

Este filme tem muitos pontos de ligação com a sua filmografia. A investigação obsessiva e incansável, que já vem do Seven e explorada até ao pormenor no Zodíaco (o melhor filme sobre obsessão alguma vez feito?). A nova era tecnológica, o seu poder, a sua grandiosa ameaça à nossa privacidade, já presente no Social Network. A Lisbeth, assim como o Zuckerberg são produtos desta nova era, sem attachments emocionais, altamente racionais e frios são o espelho de uma nova era que o Fincher tão bem tenta explicar através destas personagens fortíssimas e sempre tão bem representadas. A Lisbeth e o Zuckerberg são a face da mesma moeda e o toque genial de Fincher vai ao ponto de ela ter sido a namorada do Zuckerberg no Social Network.

Esta abordagem meio humana, meio maquina remete-nos para o universo Cyborg e a Lisbeth remete-nos para este universo (muito mais que a congénere sueca) com uma homenagem obvia  ao rei dos filmes sobre Cyborgs. Quando a Lisbeth está a castigar o seu tutor, pinta os olhos de negro, remetendo diretamente para o Cyborg da Daryl Hanna no Blade Runner.

Eu gostei muito do filme sueco (especialmente do primeiro). Mas todos os aspetos deste filme são melhores que o filme original. A fotografia, a realização, a art direction (fabulosa), a banda sonora (estrondosa), a atriz (mais frágil  e vulnerável o que a torna ainda mais interessante), o ator (o Daniel Craig é muito melhor que o seu equivalente sueco), a empatia entre os dois, o espetacular Christopher Plummer,  ou seja , tudo o que eu adorei no filme sueco foi exponenciado neste filme tornando-o quase automaticamente um dos meus filmes preferidos do ano.

O genérico de abertura é inesquecível. Dá-nos logo um murro no estômago, com imagens a lembrar um genérico de um James Bond muito negro o que não deixa de revelar ao mesmo tempo um sentido de humor muito subtil do Fincher.

As (falsas) aparências são um tema forte, bem explorado e central ao longo do filme. Tudo o que parece não é, e uma família riquíssima da sociedade sueca não passa de “thieves, misers, bullies, the most detestable collection of people that you will ever meet… My family”, como tão inesquecivelmente diz o Christopher Plummer ao Daniel Craig quando o esta a contratar para investigar a morte da sua sobrinha. O filme passa-se num registo e formato clássico de investigação de ambiente fechado, confinado a um espaço físico limitado, num típico who’s who que se vai desvendando ao longo do filme à medida que a excelente equipa Lisbeth / Blonkvist vão desbloqueando as pistas que até então ninguém tinha conseguido desvendar.

A relação dos dois funciona na perfeição, sentindo-se de imediato a química e o respeito intelectual entre ambos. A anti-sociabilidade dela é empática com o espetador pois num mundo muitas vezes de falsas aparências sabe bem ver a forma como ela lida com os “humanos” com total falta de obrigação social de simpatia ou respeito e mostrando apenas essa faceta quando realmente reconhece valor em alguém.

O David Fincher também já nos habituou a fotografias fenomenais e a ambientes únicos. Dragon Tatoo mantém esta fasquia bem alta com cenas e ambientes inesquecíveis.

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5- ARTISTA

Vida de artista… é dura, esgotante, hilariante, depressiva, concorrencial, brilhante, sedutora, viciante, apaixonante, letal, suicida, amorosa… e… sem som… é assim a vida de artista.

Há coisas muito boas no artista, e uma delas é esta. É mostrar a essência da vida de um artista, que pode ser um actor em Hollywood, como pode ser um escritor, pintor, escultor, basicamente todas as pessoas que vivem do seu talento e dependem dele e do publico para viver (ou mesmo que não dependem para viver, dependem sempre do publico para receber reconhecimento e para conseguir tocar as pessoas).

Por mais que um artista negue, o objetivo ultimo de qualquer artista é de partilhar a sua visão do mundo, o seu talento com o que os rodeiam, com a sua sociedade e no limite o mundo. Quanto maior a abrangência da partilha do talento de um artista mais realizado ele se sente. E por isso, a vida de um artista esta sempre intimamente ligada com este sentimento e como o talento geralmente não aparece sempre da mesma forma durante a vida, e principalmente não se consegue sempre adaptar as mudanças, é normal ver altos e baixos na vida de um artista.

E se o melhor para um artista é ter reconhecimento, então o pior da sua vida é não o ter. Estes altos e baixos são interpretados brilhantemente pelo Jean Dujardin, alias esse é o outro ponto fortíssimo deste filme. O casting. O Jean Dujardin tem uma performance brilhante, e já é famosa a historia dele com o Jim Carrey numa famosa pizzaria em LA durante as filmagens do artista. Sem se conhecerem um ao outro, o Jean Dujardin senta-se na mesa do Jim e começam a fazer um concurso de caretas, e diz a lenda que o Dujardin saiu vencedor.

Através das expressões faciais e corporais, dá-nos uma das melhores performances do ano, emociona-nos, faz nos rir, faz nos pensar, cria um personagem fortíssimo e basicamente aguenta com o filme todo as suas costas. Ela não fica atrás e juntos são sem dúvida o par mais forte do ano. O outro trunfo do artista é mostrar que contar uma história não tem obrigatoriamente a ver com diálogos elaborados ou efeitos especiais.

É uma lição sobre como contar uma boa história. Um filme mudo e a preto e branco no século XXI? How much out of the box can you be? A banda sonora é espantosa remete-nos automaticamente para a grande tradição cinematográfica americana, para os grandes clássicos fazendo-nos relembrar o grande papel do cinema ao longo da nossa vida. É, assim como o Hugo, uma homenagem ao cinema.

Leva-nos para os primórdios do cinema, para os clássicos de sempre, para o film noir (quem não se lembra do Sunset Boulevard ao ver este filme) mas ao mesmo tempo liga-nos ao nosso tempo quase como uma viagem no tempo, com um casting brilhante, com uma realização sem falhas e com pequenos apontamentos que traduzem um domínio do melhor que se faz no cinema atualmente (a cena do sonho onde ele se apercebe que tudo tem som menos ele é genial).

É um notável exercício de como lidar com a mudança que é a única constante da vida, principalmente no cinema. E é um filme singular e especial. Nomeado para 10 Óscares e mais 77 nomeações para outros prémios de cinema e 53 prémios ganhos é caso muito sério de sucesso em 2011.

HUGO

6- HUGO

Magia. Hugo é magia. Tudo no Hugo é magia, o ambiente é mágico, a história é magica, a história é cinema e o cinema é magia. A história do cinema nasceu de mágicos… Literalmente. E o Scorcese fez literalmente magia com este filme.

É a homenagem ao cinema por excelência e se vamos querer uma referencia no futuro que preste esta homenagem, o Hugo vai sê-la. Esta homenagem só poderia vir de 3 pessoas neste momento em Hollywood, verdadeiros amantes do cinema em todas as suas vertentes e verdadeiros conhecedores da arte, e autenticas enciclopédias ambulantes de cinema. Estas 3 pessoas são o Spielberg, o Scorcese e o Tarantino.

Esta homenagem sincera surgiu pela mão do Scorcese e ainda bem porque é um filme mágico. E o que mais poderia ser para prestar esta homenagem? A fotografia, os efeitos especiais/3d e a art direction são 3 dos principais elementos do filme que traduzem este ambiente de absoluta magia que se sente especialmente no principal habitat do filme que é a estacão de comboios parisiense. A perspetiva de uma criança abandonada, a viver numa estacão de comboios, com constante receio de ser apanhada pela policia consegue recriar melhor um ambiente Oliver Twist que o próprio filme do Polansky.

Esta criança tem muito de autobiográfico e representa a infância isolada do Scorcese e a paixão pelo cinema que nasceu com ele em tenra idade onde se refugiava nas salas de cinema, fascinado com as inúmeras histórias de outros mundos, outras pessoas, outras realidades que o transportavam para outros contextos e o ajudavam a viver. O Hugo, apesar do seu abandono, da fome e da tristeza, refugia-se nos seus vários esconderijos da estação de comboios que lhe permitem espiar a vida das pessoas que lá trabalham, que têm as suas vidas, os seus amores, os seus desgostos, as suas tristezas, as suas histórias. E o Hugo conhece-as todas sempre com uma perspetiva de voyeur, mas ajuda-o a viver. Tal como o Scorcese, as histórias são a razão da vida do Hugo.

E é através destas histórias e destas pessoas que o Hugo descobre o seu caminho e o seu destino. Tal como o Scorcese. E o destino deles é e foi… Mágico. A forma como ele filma estas histórias é simplesmente maravilhoso, relembrando muitas vezes os filmes mudos. O ator que representa o Hugo tem um papel incrível e apesar da idade merecia estar nomeado. É ele que comanda o filme, com uma sinceridade e emoção surpreendentes. É por ele que tudo faz sentido, é ele que consegue transmitir a tristeza do abandono, é ele que consegue transmitir o deslumbramento da magia, a perseverança de perseguires o teu destino, é ele que consegue transmitir a dor do crescimento, o abandono da ingenuidade, a força necessária para conseguires sobreviver. Por vezes faz lembrar o grande e definitivo filme sobre o fim da idade da inocência: A Viagem de Chichiro.

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7- HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS PART 2

É um fecho de uma saga ao nível dos melhores, ao nível dos 2 melhor fechos de sagas jamais feitos. O Regresso do Rei e o Toy Story 3 (nem o Padrinho, nem o Star Wars, nem o Alien conseguiram fechar tão bem como estes 2). Harry Potter and the Deadly Hallows fecha na perfeição um verdadeiro marco na história do cinema, só não se eleva tanto como os 2 exemplos dados anteriormente porque a saga em si não é tão qualitativamente boa. O Harry Potter tem 2 grandes filmes na saga (o terceiro e o ultimo) e fora isso cumpre e entrega filmes competentes mas sem estar ao nível dos melhores.

De qualquer forma tem o grande feito de manter o casting imaculado ao longo dos anos e de se manter focado na história e nos seus personagens. O conceito central do Harry Potter (És sempre mais fraco sozinho) foi explorado ao longo dos oito filmes atingindo o seu expoente máximo no ultimo filme. Em equipa, em grupo, com os teus amigos, com a tua família, com os teus colegas, com os “teus” és sempre mais forte.

Ao longo dos vários filmes, o HP embora predestinado nunca seria ninguém e nunca conseguiria atingir o que atingiu se não fossem os amigos e colegas. Neste ultimo filme isso é mais evidente que nunca e tudo acaba bem pela contribuição de todos. O HP é só mais um a contribuir para ao sucesso da batalha. E que batalha. A batalha final é simplesmente inesquecível. Soberbamente bem filmada com planos perfeitos e com efeitos especiais milimetricamente utilizados, nunca abusando dos mesmos, tornando o CGI mais real que nunca.

É sem qualquer duvida o melhor filme de ação e aventura do ano. Digno do melhor Spielberg. Um carrossel de ação, sempre com a aventura e a história a comandar os destinos do filme. Quase que se pode ver isoladamente, sem ter visto os filmes anteriores e é um verdadeiro prazer para qualquer fã de cinema e mais especificamente de filmes de aventuras. O HP fecha com chave de ouro, com o melhor filme da saga, e por isso mesmo torna-a mais forte e um marco incontornável na história da sétima arte.

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8- LA PIEL QUE HABITO

Este foi o ano dos veteranos. Malick, Scorcese, Allen e Almodôvar no top 10.

Depois de tantos anos a fazer filmes, com altos e baixos na inspiração, é obra que continuem a conseguir ter filmes com esta qualidade. Mas o facto é que têm, e estão de parabéns por isso. O Almodôvar é como o Allen. Qualquer novo filme é um acontecimento e mesmo que seja de inspiração media é sempre um acontecimento e é sempre bom ir vê-los. Neste caso, depois de algumas inspirações medias, o Almodôvar volta à grande forma com um dos seus filmes mais diferentes, mas ao mesmo tempo com tudo a ver com ele.

Para começar, é a melhor história do ano. Uma daquelas histórias que valem por si, uma daquelas histórias que seria interessante em qualquer formato que fosse contada. Imaginada de raiz pelo genial realizador, com cenas e personagens inacreditáveis, com varias cenas surreais durante o filme, com twists constantes e com um final surpreendente é uma história com principio meio e fim que nos deixa interessados desde o inicio, e que acaba em apoteose.

Como os grandes livros, desde a primeira cena até à ultima, o Almodôvar vai deixando sempre pequenas pistas e vai sempre desvendando um pouco da história, de uma forma que ficamos sempre com vontade de saber e descobrir mais: Uma perfeita gestão da exposição.

Junta elementos de terror, drama, surrealismo, violência e aborda a questão do transexualismo já bem patente no histórico de filmes dele e que deixa uma marca bem clara que é um filme do Almodôvar. A nível técnico está cada vez melhor, com uma realização imaculada, com uma fotografia notável e com uma edição brilhante responsável por este efeito “cenoura” que nos deixa sempre mais e mais interessados ao longo do filme. Os atores estão muito bem dirigidos com performances brilhantes (grande destaque para António Banderas que o Almodôvar fez questão de lembrar com este filme que é um excelente ator). Com muita pena minha não está sequer nomeado para filme estrangeiro, mas os Óscares valem o que valem. É um dos melhores Almodôvar dos últimos anos, e uma excelente história, muito bem contada/filmada para quem o cinema é antes de tudo o resto um grande canal de storytelling.

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9- MIDNIGHT IN PARIS

O melhor Woody desde Match Point. Whatever works também foi muito bom mas nem chegou ao meu top 10 do seu ano. Midnight não é tão bom como um match point (mas o match point é talvez o quarto melhor filme de Allen e com 47 filmes, é difícil de chegar ao cimo da tabela).

O Owen Wilson é perfeito para o típico personagem neurótico Alleniano o que nos faz imediatamente sentir em casa. O humor está ao melhor nível de Woody Allen. A sensação de inadaptação de Gil naquele universo onde vive esta muito bem conseguida e cheia de piada. Mas até aqui estamos no mais do mesmo (que com o Woody Allen já é ótimo!!), mas este filme destacou-se porque o melhor ainda esta para vir.

Quem iria lembrar-se que numa esquina de Paris, à meia noite, aparece um misterioso carro que leva o nosso personagem para uma paris dos anos 20. Onde ele encontra os seus ídolos e incontornáveis personagens da arte e cultura do século XX. Como escritor e artista que é, fica viciado nestas experiências e começa a desaparecer todos os dias para apanhar a misteriosa limusina da meia noite e para conviver com todas estas personagens. O Woody explora estas personagens históricas fazendo-as interagir com o nosso personagem. Esta vida e personalidade dada a todas estas personagens (F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Salvador Dali, etc) está muito bem conseguida com imensa piada e ao mesmo tempo com muito respeito pelas mesmas, e até eventualmente com alguma assertividade histórica.

Essa intimidade com que vivemos com todos eles faz enorme diferença pois assim como o Gil, ficamos com a sensação de estar a conviver com os grandes vultos da arte do inicio do século XX. Para além da excelente ideia e de como é explorada, com um excelente argumento e realização, o filme tem uma mensagem importante.

É óbvia demais, ficaria mais interessante se fosse mais subtil, mas não deixa de ser a grande mensagem do filme e serve muito bem para fechar a história com chave de ouro. A determinada altura o Gil começa a reparar que as personagens com quem tão viciadamente convive, os seus ídolos, se sentem também inadaptados e que falam dos outros tempos como se fossem melhores do que os que vivem atualmente. Ele entretanto apaixona-se pela Adriana (Marion Cotillard), e viajam ainda mais para o passado. E quando chegam ao final do século XIX, conhecem os notáveis Lautrec e Matisse, e também eles se queixam dos tempos que vivem e que o passado era muito melhor.

A mensagem é óbvia, mas fecha bem o filme e não deixa de ser uma mensagem útil principalmente para quem não reage bem a mudanças. No caso dos artistas surge muito esta sensação, mas sabemos como  facto que isso não é verdade e que todas as épocas tiveram filmes, livros, músicas, pinturas brilhantes. O mesmo é valido para quem diz que a evolução tecnológica não faz sentido e que o passado é que era. Quem vier mais à frente vai dizer que o facebook é que era e que a nova moda já não faz sentido. A mudança é a única constante da vida e quem acha que tudo vai ficar na mesma vai viver frustrado e a lamentar o passado. O grande Woody conta uma história cheia de humor, altamente original e com esta mensagem fabulosa. Mais um grande filme de 2011 que é uma carta de amor à cidade da luzes.

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10- JOSE E PILAR

José e Pilar, consegue uma proeza provavelmente poucas vezes conseguida. Consegue acompanhar de inacreditavelmente perto, a vida privada de um dos maiores intelectuais de sempre e a relação intima e verdadeira de 2 pessoas feitas uma para a outra, de um amor maior do que a vida, de um amor que dá sentido à vida, um amor incondicional e de infinito respeito mútuo.

Mas o realizador consegue uma proximidade tal com o génio e com o casal, que consegue que a câmara esteja sempre lá. Quando eles falam, quando eles vêm televisão, quando eles se preparam para sair, quando eles vão passear, enfim, ao longo de um período muito alargado de tempo, eles vivem os 3, e em inacreditável sintonia e intimidade. E o mais surpreendente de tudo é que o faz na fase final da vida dele, o que torna ainda mais intensa esta intimidade a 3. Se não fosse esta cumplicidade, nunca se conseguiria alcançar tão profundamente a pessoa que foi José Saramago e uma das maiores histórias de amor de todos os tempos.

Com este filme e especialmente para os portugueses, fica-se com a noção de como temos ainda que crescer como sociedade, como somos tão fechados ainda ao mundo e quão negativamente conservadores continuamos a ser. É uma chamada de atenção para o nosso povo que não aceita pessoas polémicas, com pelo na venta, que desafiam constantemente e que criticam verdadeiramente as instituições e o modo de vida de uma sociedade.

É obviamente um filme sobre a morte, e sobre a tranquilidade com que um ateu verdadeiramente assumido a enfrenta. É impressionante a forma com que Saramago aceita a morte reconhecendo-a como “a diferença entre viver e morrer é a diferença entre estar e não estar” e é assim, nem mais nem menos, que Saramago a vê. Mas para ele é natural, é assim a vida, não há nada a fazer, e não há que ter medo. Há que se despachar para aproveitar o pouco tempo que ainda tem para fazer o máximo. O homem com a enorme inteligência que tem não poderia deixar de ter imenso sentido de humor, apesar do seu feitio altamente melancólico e até agressivo, não deixa de reparar nas coisas mais simples da vida, aprecia profundamente as pessoas honestas, boas, limpas de preconceitos e com cabeças esclarecidas.

Perante uma plateia, Saramago diz o seguinte antes de morrer (ou melhor antes da primeira forte recaída que para ele e todos se pensava que seria a morte):

“Se toda a gente boa… se toda a gente… amante da beleza, se toda a gente amante do justo e do honesto… pudesse… …. reunir esforços e opor-se contra a barbárie do mundo, o mundo seria capaz de dignificar o homem… o ser humano que somos.

O mundo… talvez… pudesse ter um futuro… muito obrigado a todos”

Só por isto, este filme já valeria a pena, mas existem tantas frases e tantos pensamentos que ver este filme várias vezes irá sempre ser uma fonte de aprendizagem:

“Pilar… Encontramo-nos noutro sitio…”

“A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar”

“Todos os tempos têm coisas boas, todos os tempos as tiveram péssimas. Mas como comunidade a espécie humana é um desastre. É um desastre. Então é muito difícil dizer que todo o tempo passado foi melhor”

Um filme de exceção de 2011 em Portugal e no mundo.

10-20:

10 – Idos de março

11 – Senna

12 – We need to talk about kevin

13 – Pequenas mentiras entre amigos

14 – War Horse

15 – Dangerous method

16 – Contagio

17- The way back

18 – Carnage

19 – O miúdo da bicicleta

20 – Young adult
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